segunda-feira, 21 de setembro de 2009
duas velocidades
mais próximo
domingo, 29 de março de 2009
romance
romance
de literatura
barata.
o melhor romance;
uma coletânea,
de série ouro.
todas essas cenas, suas
toda essa sua lingerie
provocante.
toda essa sua renda branca,
unha vermelha,
sombra e rímel.
toda essa fantasia.
todo esse entusiasmo.
toda essa euforia.
todos aqueles rodopios
no centro da cidade.
todas as sessões de cinema
perdidas
propositalmente,
deixadas para trás.
todos aqueles motéis.
todos os fins de tarde.
todos os comprovantes, recibos
e notas
de todos os motéis baratos
e lotados de um amor novo
cheiroso, excitado;
de todos os restaurantes,
bares e pequenos presentes.
todas as esperas
minhas ou suas
quase sempre ansiosas.
todo aquele amor eterno,
e o flerte com outras pessoas,
flerte breve, relâmpago –
e o amor eterno.
todas as conversas longas
sobre amores passados,
e as crises de ciúme,
e as reconciliações.
todo aquele sexo
cheio de entrega,
e de auto-elogio,
e de completa adoração.
todos os atrasos de manhã,
todos os beijos desesperados
e as saudades imediatas,
antecipadas.
todos os poemas e cartas
mais ou menos bregas
que só se escrevem com o amor.
todo aquele comportamento
obsessivo
toda aquela vitória louca
do amor sobre o ego.
todo aquele mergulho mútuo
recíproco, profundo –
todo aquele maravilhoso abismo.
toda aquela maneira certa
de abandonar o ego,
para ganhá-lo;
e toda aquela maneira errada
de abandonar o ego,
para abandoná-lo.
todo aquele início
de rancor inconsciente,
toda aquela escolha entre si mesmo
ou sua relação –
toda essa relação
que não me inclui mais
que não te inclui mais
todo aquele romance
que se faz fantasma,
e eu não existo mais
e você não existe mais
e só existe, apenas, ainda
uma relação
que, infelizmente,
ganhou autonomia –
independente de nós mesmos.
depois, todo aquele fim,
para salvar-se.
todo aquele vinho
derramado na cama,
todo aquele champanhe.
todas as pílulas anticoncepcionais
esquecidas.
toda aquela irresponsabilidade
inspirada.
toda aquela pressa de sair
que imediatamente se desfaz
diante do tesão mais súbito.
todas aquelas menstruações
comemoradas.
todas aquelas brigas
exaustivas
de pontuação –
como vírgulas nas frases
do amor perfeito.
todo esse amor desfeito.
todo esse nosso romance rico
de literatura barata, série ouro,
de história terminada.
todo esse amor desfeito.
de vindas e idas impulsivas,
todo esse sangue quente.
todo esse romance desfeito
agora em forma
de livro de bolso –
com capa brilhante, colorida,
guardado para sempre
no topo da minha estante.
todo esse amadurecimento
toda essa serenidade
que ganhamos
com a conclusão desse romance
de literatura barata
série ouro.
toda essa potência adquirida
para, a partir de agora,
escrever romances classe A
aperfeiçoados em enredo, em estrutura,
mais sofisticados.
porém,
toda essa preferência eterna
que teremos
por esse específico romance;
romance
de literatura
barata,
e sua deliciosa irresponsabilidade.
e sua deliciosa intensidade.
e, agora, seu delicioso fim.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
INTER-NET
Orlando nota, através da aleatoriedade que configura o seu presente acesso à rede, que cada vez mais substitui o zapping da TV para a visita gratuita e impulsiva a uma incontável quantidade de sites; todos abertos ao mesmo tempo. Troca de um a outro rapidamente pressionando Alt + Tab no teclado e quando suga tudo o que pode deles, involuntariamente abre o Google e passa minutos inteiros com o olhar perdido mirando a barra de busca com o cursor que, piscando, aguarda sua decisão do que procurar na infindável rede.
Ele não descobre. Tenta inventar alguma coisa. Um POP-UP que pipoca no segundo plano do seu pensamento sugere: talvez buscar um sentido imediato, entre os n sites existentes, para a sua própria existência.
No inconsciente de Orlando, o Google cada vez mais assume o papel de uma espécie de oráculo fragmentário, atualizado, potencial provedor de respostas (oblíquas, porém efetivas) para as questões mais fundamentais da vida contemporânea, coletiva ou individual. Toda vez que se encontra em crise em qualquer aspecto de sua vida, Orlando acessa o Google quase sem perceber, até notar alguns segundos depois que não havia nada, em nível consciente, para buscar na Web naquele instante.
Quando está exausto física e/ou emocionalmente, o zapping de sites é a nova terapia, imediata, que o permite desligar-se temporariamente do mundo real ligando-se a uma infinidade de mundos virtuais simultâneos. Distraído, deixa seu pensamento navegar nas latências deste explosivo e inovador meio de comunicação – olhar perdido, diga-se de passagem, na caixa de entrada de uma de suas 06 contas de e-mail.
90% das 37 novas mensagens é lixo. SPAM.
Inexplicavelmente, ainda assim, o jornalista sente subir com o fluxo do seu sangue uma estranha e irresistível urgência (como numa crise de pânico) de criar mais um endereço de e-mail. Acessa o Yahoo para dar origem a orlando45@yahoo.com.br. Quando a caixa de entrada abre pela primeira vez, vazia, nova em folha, contendo apenas 01 e-mail de boas-vindas do Yahoo, ele se sente renovado. Respira aliviado.
Não precisava de um sétimo e-mail, definitivamente, mas por algum motivo desconhecido os outros seis já não lhe pareciam suficientes.
Para todos os efeitos, ele não possui um perfil no Orkut. Ele pensa que tal coisa seria algo de socialmente inaceitável para uma pessoa séria, uma semi-celebridade do mundo do jornalismo, ou seja, uma semi-celebridade séria, respeitada intelectualmente. Porém, para poder utilizar o Orkut como pesquisador, como homem do século XXI que se preocupa em estar antenado nos movimentos do mundo contemporâneo, Orlando possui um perfil fake como Brad Pitt. No avatar está uma foto do mega-astro de Hollywood no filme Sr. e Sra. Smith, com Angelina Jolie cortada no Photoshop.
Na noite em que criou o perfil fake, Orlando se masturbou, visualizando uma foto erótica (registrada por um celular) de uma stripper norte-americana – e ao mesmo tempo imaginando-se como Brad Pitt. Imaginando o seu pênis como sendo o pênis de Brad Pitt. Ele, Brad Pitt, comendo a stripper em pleno palco.
A experiência, mentalmente complexa, saciou em partes uma compulsão inconsciente de Orlando por descobrir os segredos, solucionar a complexa equação que existe por detrás da vida sexual (inicialmente escondida) de uma celebridade tão fetichizada, sexualmente desejada por bilhões de admiradores anônimos em todo o mundo; habitando as fantasias sexuais rotineiras do dia a dia de grande parte das pessoas comuns.
Orlando nota de relance, nas profundezas de sua psique, que persiste nele uma idéia truncada de que alguém como Brad Pitt só pode transar de uma maneira muito diferente da dos simples mortais: Brad Pitt deve atingir, em uma transa, a Idéia do sexo.
O gozo de Brad Pitt deve ser um gozo melhor. De maior qualidade. As transas de gente como George Clooney, Tom Cruise e Ethan Hawke devem ser transas cinco estrelas, transas tão gostosas que dificilmente uma pessoa normal vai um dia experimentar. Somente grandes celebridades.
Algumas noites depois ele adicionou no MSN a pessoa responsável pela criação de um dos 1.045 perfis fake de Angelina Jolie no Orkut e realizou com ela (ou ele), em tempo real, uma transa virtual entre o casal mais cobiçado de Hollywood. A transa foi iniciada com uma descrição de ambos os lados de suas respectivas genitálias.
Orlando notou com curiosidade analítica como a sua Angelina Jolie transferiu qualidades mundialmente reconhecidas da boca da atriz norte-americana para as configurações de sua vagina, descrita por ela como "extra-carnuda, lábios escuros e roxos". Ainda adicionou um piercing ao clitóris.
"Estou passando batom nos seus lábios", diz Orlando. Brad Pitt e Angelina Jolie – as pessoas reais – vivem suas vidas já sentindo uma pressão no inconsciente relativa à percepção embaçada e magnética de suas milhões de transas virtuais diárias – formuladas por outras pessoas; transas que eles atualizam à noite, quando chegam em casa após mais um cansativo dia de trabalho em set, como que em respeito ou mesmo obrigração aos fãs e admiradores que querem muito que isso aconteça.
Orlando acessa o Orkut neste domingo pela primeira vez, e vê na tela inicial as atualizações mais recentes dos seus amigos. Uma de suas sobrinhas, 08 anos de idade, mudou a foto do seu avatar para um close-up de Vanessa Hudgens em High School Musical. Duas noites atrás Orlando havia recebido em um de seus e-mails as fotos que vazaram de Vanessa, a estrela mirim, posando nua para o seu ex-namorado – cuja presença nas fotografias é meramente virtual, como autor.
Orlando fica um pouco assustado. A Web está conectando sua sobrinha, admiradora das produções da Disney, à pornografia. A Web está conectando a Disney à pornografia. Em duas semanas sairia na primeira capa do jornal no qual Orlando trabalha uma imagem 10x15, captada por uma câmera de vigilância, de Sarah Disney, 22 anos, bisneta de Walt Disney, transando com seu namorado John Kite, 21 anos, na enorme caçamba de uma caminhonete Toyota estacionada ao ar livre num cinema drive-in totalmente deserto em LA à 0018AM.
"A rede consegue conectar tudo – cada ponto da rede pode ser conectado a qualquer outro ponto, mesmo que este seja completamente diferente em suas configurações" (BLOCH, Orlando; pag.03).
Orlando sente um arrepio lhe tomar o corpo ao imaginar que daqui a alguns anos as fotos pornográficas que estariam vazando seriam fotos de sua sobrinha, nua, ou provavelmente em pleno ato sexual. E ele as receberia por e-mail, cujo assunto seria: FW: Adolescente Gostosa Fodendo.
E de sua sobrinha, para ele inserida em todo um complexo contexto afetivo e familiar, ético e estético, ele testemunharia a extração de um fragmento, um close-up (sujeito a zoom-in) de sua vagina, disponível a todos os olhos nos menores detalhes, minúcias e pormenores, consistência e textura – micro-detalhes que na realidade não podem ser tão considerados nem mesmo pelo namorado da menina. Real demais.
O próprio namorado da menina ficará mais incomodado não exatamente com o fato de outros homens estarem vendo a vagina de sua namorada através de fotografias – mas principalmente com o fato dele próprio não poder, no fluxo contínuo espaço-temporal da realidade, onde as coisas estão em movimento e em seus próprios limites, ver sua vagina com o mesmo domínio visual (hiper-real) que os outros homens possuirão. Ele passará a desejar mais a vagina da fotografia do que a vagina real. Pois na fotografia a vagina estará dominada, microscopicamente exposta – e na realidade, não.
Orlando, incomodado por esses pensamentos, sai do PC por alguns instantes para fumar um cigarro, e logo se encontra observando, através da janela que dá para os fundos do prédio, sua vizinha do andar de baixo se masturbar com as pernas abertas em cima de uma cadeira de couro vermelho-escuro. Alguns minutos depois a mulher se serve de um consolo. Orlando fica mais excitado com isso e considera tocar no apartamento da mulher e seduzi-la naquele instante vulnerável. Excitada, talvez ela dispensasse as exigências comuns do flerte e dos primeiros contatos para ir direto ao ponto.
Imaginou-se num filme pornô. Na vida real, na maior parte das vezes, o casal precisa se conhecer, flertar, passar pelo jogo da sedução, beijar-se, despir-se mutuamente, trocar carícias antes da penetração – enquanto no filme pornô este processo é não somente reduzido, acelerado, minimizado, como também desvalorizado: o grande destaque é para a penetração descontextualizada, em ZOOM IN, vaginas e pênis despersonalizados.
Orlando continua observando. Porém, algo que a vizinha faz em seguida retira sua atenção do sexo para outro terreno mais estranho e indefinido, ainda sexual: a mulher, que se masturbava com a mão direita, com a esquerda começa a registrar close-ups auto-eróticos de sua vagina recebendo o consolo, utilizando uma câmera fotográfica digital Sony 8.6 megapixels.
Ela própria, após gozar, divulga as fotos num website de conteúdo pornográfico produzido exclusivamente por amadores. Descontextualizando sua vagina do resto do seu corpo, ela deve se sentir apta a participar da contemporânea tendência exibicionista de exposição da vida íntima e sexual dos indivíduos na Internet e ainda assim evitar a desmoralização do seu rosto. Despersonalizar sua vagina.
Juliana Spoladore, esta jovem atriz de teatro, completamente anônima fora do seu país, não passa de uma pequena "starlet" ao lado de mulheres como Paris Hilton. Vanessa Hudgens. Pamela Anderson. Britney Spears. Meg White. Laure Manadou. Daniela Cicarelli. Ainda assim, ela deseja que seu corpo – transformado em imagens – tome um papel influente na inspiração e fantasia sexuais de homens desconhecidos. Que observem e fetichizem sua genitália, agora virtualmente exposta a todo o mundo.
Orlando sofre de uma cefaléia hiper-intensa, somente aliviada após o terceiro comprimido de analgésico, devido ao pensamento obsessivo e insistente de que na era das vaginas descontextualizadas em sites pornográficos na Internet não há como ter certeza absoluta de que a vagina da sua própria esposa não esteja entre o imenso acervo.
"A experiência está vazando na Internet" (BLOCH, Orlando; pag.05).
domingo, 10 de agosto de 2008
H1
vermelho-escuro
amaciando os azuis elétricos
e os vermelhos da noite
quero que tudo o que eu goste
fique macio.
amaciando os amarelos elétricos
e os vermelhos da noite
escarlate; vespertina;
a minha noite.
o meu fim de tarde quente
a zona erógena do dia
massageando meus olhos
o colírio natural dos meus olhos;
o sexo que fizemos e faremos
tão vermelho-claro-escuro
tão âmbar azulado
a luz elétrica da carne
o cheiro armazenado
ainda seus pelos na minha pele.
tocando essa minha noite
vermelho-escuro pelo lado esquerdo
sua agressividade suave me toma
e eu a possuo não importa;
encontro meu glamour no cerne
meu cerne no glamour
dessa imagem que a mim pertence
a qual você vem pertencer;
guardando seus lábios de cereja
entre os meus de damasco
que você perceba que te quero
e deixe transparecer a percepção
para que eu te queira
com mais violência;
o meu desejo é análogo
aos carros do rush calmo;
o sinal vai abrir,
nós temos três cores.
a toda essa aleatoriedade urbana
que sinaliza uma libido livre
o eu relaxado
e a não-reflexão
me integro perfeitamente,
pois espelho não sou.
RADIO-ATIVIDADE [2008]
Britney Spears engravidou de um paparazzo sem ter tido com o mesmo nenhum tipo de contato físico. Quando o corpo da pop star se aproximou ao máximo do corpo do fotógrafo da revista Life ainda havia uma distância de 6m entre eles. E mesmo assim o teste de DNA revelou, com 100% de certeza, o nome de Mike Davis como pai da primeira criança verdadeiramente contemporânea.
É a imaculada concepção do século vinte-e-um.
Os paparazzi e seus híbridos de câmera fotográfica com metralhadora automática – superando o ritmo de trabalho do cinematógrafo, eles conseguem registrar até 769,56 frames por segundo – espreitam e perseguem o corpo da celebridade como aves de rapina cercam e atacam a cobiçada carniça que apodrece no deserto.
Para eles, um corpo não-fotografado é um corpo corrompido, putrefato, e as lentes de suas máquinas águam de fome conforme seu olfato detecta uma imagem em potencial no meio da multidão.
O ensaio não-autorizado de Britney Spears nadando topless sozinha na piscina de um hotel em Los Angeles foi publicado na íntegra na edição de janeiro de 2008 da Life. A edição mais vendida da história da revista. O ensaio causou reações extremas, pois o público sabia estar diante de fotos que geraram a gravidez de Britney Spears, isto é, fotos que não apenas registraram um momento mas alteraram o mesmo. E, mais do que isso, o que as fotos alteraram não é visível nas mesmas.
Mike Davis foi o único paparazzo a ter acesso ao momento íntimo de Britney Spears, que havia ordenado à equipe do hotel que fechasse as portas de acesso à piscina para que ela pudesse ter a privacidade necessária ao seu banho seminu. Nos 4 minutos e 22 segundos em que Davis ficou diante de Britney – escondido atrás das espreguiçadeiras dispostas ao redor da piscina – sua câmera registrou 15 mil e 267 fotografias da pop star. Mais frames captados do que milésimos de segundos vividos; mais imagens registradas do que tempo decorrido.
A energia explosiva e crescente do flash superexcitado da Nikon do fotógrafo, junto da massiva imobilização de instantes vivos da realidade (como uma força mecano-psíquica de alucinação ao reverso) para o interior de um HD de 3 terabytes, penetraram e atravessaram o corpo de Britney Spears como uma avalanche de informação invisível e codificada atropelando uma antena decodificadora. Nesse movimento, alguns fragmentos do sinal foram traduzidos em informação espermatozóidica no interior de seu pop-útero.
Britney estava no período fértil, o que fez com que seu útero estivesse mais sensível à energia sexual liberada pelos clicks e flashs ansiosos do paparazzo. Assim como uma antena de TV capta o sinal de uma imagem e a materializa em sua tela: o aparelho de TV sendo o útero magnetizado de Britney Spears; a antena sendo a ovulação; o sinal sendo a energia multidimensional e orgânica gerada pela combinação da excitação sexual do paparazzo, seu gozo pela obtenção das fotografias carregadas de adrenalina e o próprio fenômeno físico, mecânico da fotografia; a imagem, por fim, sendo o bebê.
A Nikon vai ser a patrocinadora oficial da filha de Davis com Spears. Além disso, esta será a primeira criança cujo nome será escolhido pelo público – sem a intervenção dos pais – através de um concurso aberto no website da cantora. O vencedor será padrinho/madrinha do bebê.
(#2)
Tenho imagens pelo corpo. Imagens sendo re-veladas pelo meu corpo. Todos nós temos; mesmo aqueles que não percebem.
A sequência inicial de um documentário da BBC sobre os ataques terroristas ao World Trade Center insiste em ser revelada na região da minha coluna vertebral lombar. Não sei por que. Outros tipos de imagens também entram nesse processo: por exemplo, imagens de uma menina com quem eu havia me relacionado há anos atrás já insistiram, por um tempo, em ser reveladas na altura do meu joelho direito. Como uma coceira nômade, que muda de lugar no corpo conforme você consegue coçá-la, as imagens migram de um membro, de um órgão a outro. Algumas, por sua vez, permanecem em um só lugar.
É uma questão de sistema, de configuração. De compatibilidade entre a informação e o dispositivo que a media, que a veicula, que a decodifica. É também uma questão de sintonia: da posição e da resistência de um determinado membro/órgão do corpo e da força da imagem.
As imagens não podem ser vistas no corpo. Se você olhar para o meu corpo agora, não verá nenhuma imagem além da minha própria, real e material. Porém, as imagens estão aqui. Além disso, não estão fixadas, como propriedades ou novas partes do meu corpo; estão se movendo, tentando encontrar a melhor posição, a melhor sintonia.
Às vezes elas desaparecem: temporariamente (devido a interferências ou mesmo ao desligamento provisório do órgão/membro enquanto receptor de sinais); ou definitivamente (quando o organismo consegue destruí-las, expeli-las do seu sistema com a ajuda de anticorpos produzidos por glândulas anti-imagem).
Os corpos contemporâneos estão se modificando, e a tendência é que suas "evoluções" se consolidem nos próximos anos ou décadas. Ninguém mais nascerá com os dentes sisos e todos possuirão glândulas anti-imagens, presentes para defender o corpo de corpos gráficos de efeito maligno.
As imagens não podem ser enxergadas no corpo – da mesma forma como você não vê pelo ar ou em qualquer simples objeto do nosso envoltório os quatrilhões de toneladas de imagens que circulam em cada centímetro cúbico do espaço, a cada milésimo de segundo do tempo na atmosfera desse planeta.
Imagens emitidas e difundidas por programadores e canais de televisão como Fox, National Geographic, Discovery Channel, Animal Planet, People & Arts, E! Entertainment, TNT, HBO, MTV, Globo, Record, CNN, CBS, RAI, BBC, TVE, TV5, Cartoon Network, Boomerang, A&E, Eurochannel, Nickelodeon, Cinemax, ABC, NBC, PBS, ESPN, Universal Channel, Warner Channel, Sony Entertainment Television, Animax, DW-TV, Disney Channel, Jetix, TCM, SciFi Channel, History Channel, MGM, entre milhões de outros.
Imagens que vibram ansiosamente no ar para serem decodificadas por um aparelho de TV que as possa ler. No entanto, não se pode esperar que toda essa informação codificada que se multiplica a cada centímetro cúbico do espaço deste planeta só gere resultados e só se transforme em outra coisa no interior de um aparelho de TV. O que acontece é que só o aparelho de TV – ou outros aparelhos convergentes (telefones celulares etc.) – pode atualizar a informação em imagens que são exibidas formalmente numa tela.
Porém, mesmo que nós não sintamos ou percebamos, essas informações codificadas estão o tempo inteiro atravessando (e não somente atravessando) nossos corpos. Não há um só pedaço de ar que não contenha em seu sopro imagens-virtuais pedindo por atualização. Ao entrar em contato com meus rins, por exemplo, essa informação é transformada em outra coisa, mas outra coisa que somente meus rins – com sua linguagem renal – lêem. Transformam-se em imagens-internas, que na maioria das vezes o cérebro consegue captar formalmente em espécies de ecos imagéticos.
Meus rins não exibem imagens, como a TV – que as decodifica, para fora, disponíveis aos olhos humanos. Meus rins inibem imagens: as aprisionam no meu corpo, bloqueiam sua passagem. Quando uma imagem está sendo decodificada pelo meu intestino, por exemplo, isso significa que este órgão não quer deixar a imagem passar – isto é, ele a inibe. Cena clássica: a imagem da TV está ruim e a família inteira fica tentando ajeitar a antena para melhorar a recepção. Não percebem que são seus próprios corpos que estão inibindo essas imagens, bloqueando-as.
Quando um órgão ou membro desiste de inibir uma determinada imagem, imediatamente esta é liberada e exibida pelos devidos aparelhos tecnológicos, deixando de ocupar uma parte do corpo como energia parasitária.
terça-feira, 1 de julho de 2008
23 Frases [2008]
[2] A metafísica não pega no osso.
[3] Dar perguntas e fazer respostas.
[4] Os relógios da minha casa não marcam o mesmo horário.
[5] Ninguém escreve sobre a caneta.
[6] Quanto mais escrevo, à mão, mais minha letra deita para a direita. Como se minha escrita quisesse dormir.
[7] O silêncio não envolve o som.
[8] A existência é simples. O simples é que é difícil.
[9] Os centrífugos ganharão o jogo.
[10] Da noite para o dia não é de repente. A noite pode ser longa.
[11] O primeiro sorriso. O último olhar. O toque do meio.
[12] Test-drive de mim.
[13] Tenho saudades de um tijolo: aquele muro não o merece.
[14] A máscara nunca se esconde.
[15] Beber água é recuperar um pedaço do corpo.
[16] Uma só música: parte dos instrumentos fala ao lado esquerdo do cérebro, a outra parte fala ao lado direito.
[17] Seu rosto não está no espelho quando você está longe do espelho.
[18] A poesia é uma baioneta.
[19] O romance é um co-lapso.
[20] Comece pelo plano B.
[21] Gosto muito de você. Não me deixe descobri-lo.
[22] Em 20 minutos quase tudo terá 20 minutos a mais.
[23] A noite me toca - como se eu fosse um piano.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Momento [2008]
no oceano no fundo
alto-falantes imensos
misteriosamente
borbulham músicas
nossas.
água cristalina
confunde-se à luz líquida
que escorre das garrafas;
aqueles espumantes
nossos.
esta garrafa de vinho
que agora derramo sozinho,
contém um pergaminho
escrito em uvas
suas.
cair no mar
pode ser estranho,
se o corpo está seco;
mas ele molha.
rolar na areia
também pode ser,
se o corpo molhado;
ele seca.
precisava do meu sal
sendo tão doce;
e quando era salgada
eu banhava seu corpo
no meu açúcar,
sua...
(...)
e suas passagens secretas
que só passaram a existir
quando descobertas, por mim;
ah, não guarde segredo.
eu mesmo fechei várias portas
que agora escancaro, feliz.
minhas risadas chegam a ecoar;
entre ou não você
elas eu não fecho mais;
o planeta sofre sim
alterações de velocidade.
& não se comova:
é tudo coisa de momento;
se não fosse agora,
se fosse daqui a pouco
não haveria nada disso;
eu não escreveria este
poema.
mas um pouco após
o daqui a pouco
talvez eu escrevesse.
Você no silêncio [2008]
há algo de coisa alguma -
o silêncio nunca fez tanto barulho.
você habita os meus sonhos mais profundos;
aqueles dos quais não lembro ao amanhecer.
Não houve chuva [2008]
os paralelepípedos saltam do chão;
mas quando voltam a cair
caem mais suaves,
re-encaixados com perfeição
na terra que, mesmo sem ter havido chuva,
surpreende-se molhada.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Leões [2008]
pois ninguém sabe onde eles ficam;
e eu tenho as chaves de lá.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Arquitetônica [2005]
terça-feira, 3 de junho de 2008
Sobre o Café de Flore
lá embaixo, e aqui em cima
abertas as janelas
e suas pernas --
e eu te como, com paixão e violência
sentindo o calor da sua vagina
enquanto as janelas nos aplaudem
batendo, ao ritmo do vento frio e forte
que veio do sul essa noite.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
140408: às vezes
finito
e as pessoas estão indo –
elas ficam indo, elas vão ficando,
de um lado
a outro
de outro lado
a um.
A poesia nasce da necessidade de escrever uma frase que só faça sentido quebrada – e que componha um desenho.
A literatura não existe. O que existe é outra coisa, que chamam de literatura. A literatura nasce da necessidade de fazer outra coisa.
Outra coisa que não seja literatura.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
NEON ON FLESH
neon light glow neon red night
maybe neo-realistic film noir
smoky night club one smoke
seduction mystery, unsolved
dissolve, materialize with it –
neon moon neon sky neon glow
hand on wheel oh highway sex drive
revolutionary picture smoke ring
throw keys away trip
colored drinks straws
ice liquor many colors
velvet red fingernails
move it round fake
red fingernails
scratch my back while -
no hair on pubic places
the jazz beat heat
electronic sleep
my play thing mate
my flesh bone meat toy -
pink cellophane cell phone
the blue tooth mouth
iTune beer iMac beer
iPod beer cold cool skirt
iLady wears curved eyebrows
lip + stick high hips hip
roll on sand into water
tanned red hair love -
dying hot heat beat
cold coconut water
red lips straw sexy blink
wink in bed for me lazy
numb legs one more time
shake -
strawberry you
chantilly you honey you
bite your toe lick between
warm wet honey me -
marijuana memories
cigarette frenzy
suck energy from tin cans and
pills beach salt body my sugar
great touch conversation
quote me, right away -
remember smoke
do my brains out
do my body full up in
empty my body fluids
don't imagine, photograph
intelligently superficial
can only be smart belly full
and pleasured, me -
make out taxi cab
the hell with money want you now
fell the neon light glow neon
see the feeling
music to make love by
make love by traffic lights
turning green red several t -
coffee bread afternoons
orange juice cigarette morning
look out the swimming pool
bikini bathing suits red sun
let's go to the beach
salt honey sweet sugar
go home bath do it sleep
eat air conditioning –
entering the glorious highway
of sleepy strong sex drive;
condoms in ashtrays
cigarettes in sauce plates
let's go talk wind outside
elegantly naughty
your moves towards me –
throw it away come here
I go there
segunda-feira, 9 de abril de 2007
sexta-feira, 16 de março de 2007
Astro-logia [2007].
os humores variam com a lua,
mas não há qualquer lógica nisso.
as pirâmides estavam alinhadas
com as constelações -- ilógico.
humor: cheio minguante crescente
novo.
os signos nada significam.
os signos - a-significantes.
os calendários existem, mas estão repletos
de lendas. qual é o relógio (o principal) que não
pode ser posto em dúvida?
: atrasado?
: adiantado?
: certo?!
o relógio do príncipe é o relógio real;
o relógio da realeza é o relógio
da autoridade -- sim, certo.
aliás, a terra é redonda
e se encontra (solta) no céu
-- nós já estamos no céu;
não há porque temer voar.
-- nada é tão grave assim;
nem mesmo a gravidade.
bata o pé por outro mapa astral.
quero outro, quero outro.
o maior mistério é por que
as estrelas que já morreram
continuam brilhando para nós.
os quatro elementos são:
pedra, papel e tesoura -- faltou um.
quem diria?
entorno da terra.
os letreiros de neón quando pifam
param de brilhar.
quarta-feira, 7 de março de 2007
KAFKIANAS BRASILEIRAS (1o movimento) [2007].
Fumar maconha chilena com o amigo argentino da minha irmã em sua estreita porém alta e muito estranha casa em Copacabana. Muros inteiramente revestidos de plantas verdes espinhosas e levemente animadas como pedaços de cobras semi-vivas que param de se mexer quando você olha, terreno de poucos metros quadrados mas a casa era como uma torre medieval de três andares numa cidade de formigas. Por dentro, madeira nova mais ou menos clara e brilhante, iluminação baixa que não permite perceber e/ou pensar o ambiente e/ou a situação que se instala no ambiente com clareza, um elevador rústico que me fez tremer sem saber por que, por que havia um elevador que um dia longínquo com certeza estivera enferrujado e agora estava re-pintado e re-polido numa casa de apenas três andares e decoração interior moderna, fiz interrogação, e quem nos atendeu e nos guiou por dentro da casa foi a tia argentina que só falava castelhano e cheirava a incenso. Ele está em seu quarto no terceiro andar, disse a tia velha magra ossuda e flácida vestida como uma cigana apertando o botão clássico do elevador clássico com seu dedo de bruxa. Minha irmã aproveitou para ser educada arranhando o seu bom espanhol enquanto eu olhava cautelosamente ao redor e fixava os ouvidos no ruído do elevador que descia lentamente. Por dentro eu ouvia meus nervos empilhados sussurrarem o que você está fazendo aqui? e eu respondia em silêncio não era esta a casa que eu estava esperando, ora; enquanto minha irmã fazia small talk em espanhol e aparentemente sem medo algum. Em algum lugar desta sala despovoada a Monalisa de Leonardo da Vinci deveria estar empoeirada observando e movendo os olhos discreta lenta e panoramicamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, e se olhássemos para ela ela fixaria os olhos imediatamente na posição normal assim como paravam de se mover as plantas do lado de fora da casa. O elevador chegou gritando brusca e gravemente como um pesado animal mitológico de metal e a peculiar tia argentina rasgou as grades de ferro para o lado entrando conosco naquele antigo cubículo móvel, fechando e apertando o número três. A maquinaria voltou a funcionar e nos carregou para cima da torre; os números eram algarismos romanos de ouro I II e III e além deles havia somente uma letra, antes do I, a letra C que julguei ser de Cobertura mas ao mesmo tempo estranhei o fato de estar posicionada antes do I e não após o III. Quando chegamos ao III notei no mesmo instante que o III era a própria cobertura, isto é, o último andar da casa, então aquele C, antes do I, só poderia dar acesso, então, a um (ao) calabouço, então. Haveria um calabouço na casa? A tia nos levou até o quarto de Julio − j pronunciado como r − e nos instalou no sofá e em seguida saiu. Julio estava lá, logo à nossa frente, a três metros da gente, mas só nos cumprimentou cerca de dois longos minutos depois após terminar algum trabalho meticuloso que ele fazia com uma maquete de isopor que reproduzia uma cidade nunca antes produzida resmungando em voz baixa algumas palavras indecifráveis expressão facial fechada. De um segundo a outro numa brusquidão absurda a expressão facial se abriu ele levantou a cabeça e veio nos receber com um calor frio pois naquele ambiente as coisas calorosas ganhavam frieza sem perder o calor; fogueira de gelo. Aluguei quatro filmes, pra vocês escolherem qual a gente vai ver, disse Julio em seu português quase perfeito quase sem sotaque. Fiquei menos nervoso. Veríamos um filme então e após o filme iríamos embora livres daquele lugar. Ao me imaginar saindo daquela casa no fim daquela visita eu via e ouvia também a minha boca fazendo ufa! e meu dedo indicador tirando o suor da testa. Uma sensação de arrependimento me tomava o corpo mas eu fazia esforço para pensar no melhor, pensar positivo. Mexi na sacola da vídeo-locadora e enfim o filme mais votado e escolhido se chamava Esquentando o Alaska, o único dos quatro do qual eu nunca tinha ouvido falar mas ok. Mas antes fumar maconha. A esperada maconha... Eu sabia que ele fumava. Ele sabia que eu fumava. O fumar maconha estava implícito, subentendido nessa visita. Vamos?, perguntou Julio com erva e seda na mão. Vamos.
Saímos do quarto e fomos parar na varanda descoberta da cobertura. O que separava o quarto dessa vasta varanda eram grandes largas portas de vidro de modo que de onde eu estava sentado ainda conseguia ver ao menos as pernas da minha irmã sentada no sofá esperando nós voltarmos para assistir o filme. Ela não fumava nunca tinha fumado maconha e Julio não se incomodou em deixá-la lá dentro porque a tia argentina já havia retornado se antecipando e se incumbindo do trabalho de distraí-la enquanto isso. Não fume muita maconha tá Julio?, disse em castelhano a tia peculiar em meio-tom de brincadeira. A varanda era vasta mas estranha como quase tudo naquela casa, tinha uma pequena piscina suja e cheia de larvas e várias plantas mortas em grandes e empoeirados vasos. Sentamo-nos um de frente para o outro em duas tortas cadeiras de metal escuro e velho. Essa aqui é chilena, disse ele enquanto fazia o baseado sem muito cuidado, na verdade com uma pressa que eu não conseguia compreender. Agora ele demonstrava mais ansiedade do que eu, que ainda obtinha maior sucesso ao escondê-la mesmo com mais motivos para tê-la. Sua ansiedade incompreensível para mim me deixou ainda mais ansioso, então passei a demonstrar mais meu nervosismo, inevitavelmente. Ele acendeu o baseado enquanto me contava como arrumara aquela erva chilena e como havia plantado maconha antigamente naquela varanda e como jogara as plantinhas fora depois que um dos seus vizinhos que também plantava foi denunciado à polícia por algum anônimo. Havia também na varanda, ao lado da piscina, uma planta carnívora em tamanho médio que às vezes abria a boca e revelava seus dentinhos afiados. Julio me confidenciou que alimentava a planta carnívora com pequenos ratos de esgoto para salvar para si a larga soma de dinheiro que sua tia dava a ele para que ele comprasse uma ração especial importada da China no mercado negro. A maconha chilena era muito forte e após três tapas bem dados eu já estava muito chapado e com a percepção vacilante, sem saber, às vezes, se meu corpo estava onde parecia estar ou se estava em outro lugar, já, e eu demorava a perceber esse suposto movimento ou deslocamento; depois, alguns segundos depois, eu me convencia de que não havia me movido, então, e ainda estava aqui onde aparentemente estava. Enquanto ele falava numa voz grave e rouca mudando bruscamente de um assunto para outro completamente diferente como se lutasse consigo mesmo para ser bem sucedido em prender minha atenção e jamais me fazer entediado para pensar em outras coisas às vezes esquecendo o que acabara de dizer eu olhava para o lado na direção da piscina e minha percepção vacilava mais uma vez junto ao meu pensamento e eu tinha dúvidas se estava pulando ou não naquela piscina do nada numa atitude louca e chocante ou se ainda estava aqui, sim, ainda estava aqui. O mesmo aconteceu várias vezes quando olhei na direção do parapeito da mureta que separava a varanda do ar, do abismo, da queda, e não sabia se já havia pulado num ato suicida incompreensível, talvez já houvesse pulado ou estivesse pulando, a caminho de pular, mas minha percepção estivesse atrasada ainda mostrando ao meu cérebro os segundos anteriores quando eu ainda estava aqui − mas no fim era verdade, eu ainda estava aqui. Com certo esforço tentava voltar a prestar atenção à fala descoordenada de Julio enquanto ele me passava o baseado para o meu décimo tapa. Tô chapadão esse beque chileno é muito bom, ele disse. Lá de dentro do quarto eu ouvi a fala cantada em baixo volume e cheia de incenso da tia argentina de Julio que agora estava sentada ao lado da minha irmã falando sem parar mas em tom irritantemente calmo e vagaroso em castelhano e as pernas da minha irmã estavam imóveis e só a tia argentina de Julio falava, pegando nas mãos da minha irmã, minha irmã não dizia nada há minutos e tudo me fez crer que ela estava sendo hipnotizada pela cigana argentina de Julio mulher estranha e de tons misteriosos, místicos, e Julio estaria então apenas me distraindo e me tornando menos resistente com um puta beque chileno forte e batizado com alguma química louca para que eu tivesse um teto preto e acordasse já no calabouço amarrado a uma maca ao lado da minha irmã amarrada a outra maca e sei lá que tipo de experimentos loucos seriam executados em nós que tipo de torturas meu Deus. Eu estava atordoado e com medo. Não conseguia mais tirar o olhar da direção do quarto e Julio continuava falando e mudando de assunto no meio das frases sem concluir as sentenças. Já havíamos terminado de fumar o baseado há mais de cinco minutos e eu não compreendia porque ele não sugeria que voltássemos para o interior da sala já que o propósito da visita era ver o filme e não fumar a maconha, dez minutos e ele olhava para trás como para conferir alguma coisa no interior da sala para a qual ele estava de costas e cada vez mais eu me convencia de que meu medo indicava uma situação real que estava de fato acontecendo e não um delírio como se Julio estivesse olhando quinze minutos após o baseado para conferir se sua tia já tinha conseguido efetuar a hipnose na minha irmã, amiga recente de Julio. O motivo da hipnose talvez fosse para convencer minha irmã de dar para Julio que estava há semanas tentando alguma coisa sexual com ela mas não conseguia nada além de uma amizade cada vez mais próxima; e o motivo do baseado chileno era me atordoar para que eu não fosse um obstáculo para a execução do ato sexual forçado entre eles dois. Vinte minutos e eu não agüentava mais tive que sugerir eu mesmo Vamo vê o filme, cara?
Vamo.
Voltamos. A tia argentina se levantou sorrindo para se retirar e nos deixar a sós e havia um sorriso estranho na cara da minha irmã. Julio colocou o filme, uma comédia com Russell Crowe e não lembro quem mais. Aliás, as únicas coisas que eu lembro do filme é que Russell Crowe estava no elenco, era uma comédia, a história se passava no Alaska e tinha algo a ver com esqui ou algum esporte parecido praticado no gelo ou na neve. Porém o que foi muito assustador é que ao assistir aquele filme, aquela noite, a cada segundo eu tinha a fortíssima impressão de já ter visto todas aquelas cenas algum outro dia do meu passado. Assistir aquele filme foi como ter um déjà vu constante de duas horas de duração, a cada segundo que passava eu tinha a impressionante sensação de poder contar aos outros o que se passaria no próximo segundo, na próxima cena, mas o próximo segundo e a próxima cena sempre chegavam logo, imediatamente, antes que eu pudesse esboçar as palavras para contá-los; porém, sempre chegavam como confirmações. Isso mesmo! Eu sabia que era isso! Em suma, eu tinha a certeza absoluta de já tê-lo assistido e era impossível que eu o tivesse assistido pois nunca sequer ouvira falar no filme, com certeza não o assistira nos cinemas (se é que ele havia passado nos cinemas, dada a sua cara de produção B) e ele era um lançamento recente nas locadoras, como havia apontado o nosso amigo Julio. Como já disse hoje não lembro de uma cena sequer e não posso alegar com certeza se esse filme existe ou não, é preciso conferir. Na minha memória, hoje, ele tem algo de alienígena, como se houvesse sido trazido de um outro planeta naquela mesma noite especialmente para nós, especialmente para mim. Lembro que era muito engraçado, mas que eu, por estar muito chapado, ria tanto nas cenas realmente engraçadas, feitas para rir, quanto em momentos quaisquer, momentos em que o personagem dizia oi ao outro, por exemplo, de uma maneira que seria comum ou nada engraçada para uma pessoa em condições normais, mas eu explodia de rir, literalmente caía do sofá e rolava no chão de tanto rir, pois naquela noite visitei outras dimensões, labirintos espaciais da comédia e do absurdo e da hipnose e da telepatia cômica espacial incrível. Julio também ria. Sempre que eu ria ele ria com a mesma intensidade ou quase, mesmo quando eu ria demais de nada. E depois dele, minha irmã também ria, mesmo quando ríamos demais e de nada. E quando fui embora daquela casa no banco do carona do carro da minha irmã tudo no que eu conseguia pensar era em comer um puta cheeseburger com um copo de coca-cola para saciar a minha imensa larica. Arrotar depois. Fumar um cigarro. Mais nada.
E o fiz.
Muitos meses, talvez até mais de um ano depois, ao conversar com a minha irmã sobre Julio ela me revelou algo que para mim era uma novidade estupenda. Julio era filho de Alberto Baviera, um dos mais famosos psicanalistas latino-americanos, argentino há muito tempo radicado no Brasil. Aquela casa em Copacabana, então, era justamente a casa de Alberto Baviera, psicanalista, que por acaso não se encontrava lá aquela noite.
Freud, mesmo, chegou a utilizar a técnica hipnótica. A psicanálise derivou-se da hipnose.
sábado, 10 de fevereiro de 2007
Shampoo e Condicionador [2007].
Não uso condicionador, e não só porque preciso reduzir a oleosidade dos meus cabelos. De shampoo eu gosto. É uma das coisas que melhor foi nomeada em toda a história humana, uma das palavras mais especiais, pois não se reduz ao verbo frio e gramatical, é dotada de cheiro e espuma. Quando se diz sham, uma bolha de sabão se forma na boca, quando se diz poo, a bolha estoura, e nosso olfato sente cheiro de maçã verde, de camomila, de erva doce, e nosso cérebro sente espuma ao seu redor.
Mas condicionador não uso. Não me deixo enganar por isso. É nitidamente - quando se tem atenção - um elemento das tramas do império. Um dos mecanismos do sistema para a dominação das multidões, disfarçado sob o signo da estética. Sob o pretexto de desembaraçar e manter seus cabelos lisos, mais lisos, sedosos, o líquido vai parar nas suas mãos, e das suas mãos vai para a sua cabeça, e você, com a ponta dos seus dedos, fica esfregando de modo maquinal, mecânico, o líquido no seu couro cabeludo, que, como sabemos, não é intransponível. Conforme suas mãos se abrem e se fecham, seus dedos para frente e para trás, criando alguma espuma, o líquido faz a lenta passagem do couro cabeludo para o cérebro, e escorre e envolve e penetra no cérebro, que resulta condicionado: a aceitar de bom grado as normas, as convenções sociais. Os condicionadores mais perigosos e nocivos são aqueles que, no modo de usar, pedem para deixar agir por alguns minutos. Se for necessário, repita a operação. Todos os que usam condicionador, saem do banheiro a cada vez um pouco mais anestesiados, menos resistentes. Com a cabeça condicionada. E sequer percebem o efeito.
sábado, 3 de fevereiro de 2007
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Almofada [2007].
saudades da minha almofada perfeita.
uma noite sem ela, e eu já não consigo
dormir direito.
nada melhor para ter entre os braços.
nada melhor para entrelaçar
entre as pernas,
nada melhor que minha almofada perfeita;
da qual eu − sou a pelúcia, e sinto saudades.
mas amanhã, dormirei novamente com ela.
e ao acordar no dia seguinte, despejarei sobre ela
os meus elogios:
nada melhor do que a sua carne, o seu recheio.
nenhum travesseiro de penas, sejam estas de pato
ou penas de pavão, pode ser comparado a você!
nada melhor do que a sua textura.
nenhuma seda, nenhum algodão, nada!
nada melhor do que a sua pele, a sua fronha.
às vezes não resisto, e a levo para casa.
a apresento à minha família: pessoal,
essa é a minha almofada.
agora nos dêem licença que eu vou apertá-la
um pouco, lá no meu quarto.
às vezes ela não resiste, e me leva para casa.
passamos um longo tempo deitados,
fazendo preguiça juntos, um no outro.
somos os seres mais macios do mundo.
a gente boceja grande um no outro,
como dois gatos cheios de amor.
às vezes eu fico lambendo a sua face.
às vezes eu fico cheirando, tentando cheirar
por debaixo de sua epiderme.
saudades das cores! da minha almofada perfeita;
a minha branquinha de boca vermelha.
mas amanhã, a verei novamente.
amanhã, ouvirei novamente quando ela disser:
vem cá, vem. vem deitar com o seu amor.
e na hora de dormir, ela diz o mesmo,
mas completa:
...só não seja muito espaçoso
e não me esprema na parede, sim?
nós somos muito grandes, eu e minha almofada.
eu e ela juntos numa cama de solteiro, e mais o amor
que há em nós e entre nós,
somos como dois navios numa piscina.
a verdade é que precisamos de uma cama de casal.
desmedida.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Sistemas [2007].
a pergunta é
por que parar a brisa?
pois o pára-choque
eu até entendo.
eu quero ser testado.
conectem ao meu corpo
um termômetro; um barômetro;
um velocímetro; um cata-ventos;
computem minha dor
e meu prazer,
mas depois me deixem em paz.
às vezes o maior reconhecimento
é ser ignorado.
conectem ao meu corpo
um isso, um aquilo, um bla-
bla-bla, um zigue-zague.
pois não,
todo sistema
é nervoso.
Test Drive (Cut-up) [2006].
automobilísticas internacionais para comprovar a eficiência do novo modelo de airbags morte meu corpo de resina parafina vaselina adrenalina de borracha espirrando endorfina e serotonina ao explodir nos testes feitos pelas grandes corporativas toda a tensão e ser destruído antes do tempo metamorfoseando-me num ícone do balanceamento da pulsão de sinalização com setas apontando para os movimentos involuntários convulsões e espasmos diários do meu corpo querendo liberar de acidentes para redução da estatística de mortos por causas não-naturais por causa dos movimentos involuntários do cosmos que constroem placas de exercício do vir a ser voluntário para a ciência esperma em tubo de ensaio servir de cobaia para a tecnologia de prevenção ser mandado ao espaço junto com a nave enviada à marte servir o exército ir contra a natureza ir contra o
Fé no Pé [2006].
calcei os sapatos,
não vejo mais meus pés -
é preciso ter fé para crer
que eles ainda estão lá dentro.
Ração [2006].
diz-se dele um animal lógico.
mas, nem exatamente animal
nem exatamente lógico,
o ser humano - é zôo-lógico!
Boxing [2006].
escrevo cada um
de meus textos
como se fosse me
acabar nele, meu
fim no fim de cada
um de meus textos;
para este que vos soca
cada poema é
um round; quando me
sinto ganhando, o
cinturão se anuncia;
quando me sinto
perdendo, respiro fundo
e minha consistência
conta até 10 -
é o tempo que há para
me reerguer,
e tentar escapar do nocaute;
e no fim, mesmo
nem me sobra forças
para me conferir vivo
ou morto - normal
ou torto;
permaneço acabado,
caído...
...ao pé da letra.
Kick Boxing [2006].
o pé da letra é assim mesmo>
chato.
a gente diz, ou escreve, uma palavra
e ele insiste em chutar seu sentido para longe,
deixando só a carcaça - a imagem vazia -
a casca do ovo - rachada, aberta,
esperando ser preenchida com uma nova gema
dissociada.
Re-pender no ar [2006].
não me arrependo de nada.
nem de ter me arrependido.
nem de me arrepender, agora,
nesse exato momento,
por ter escrito este poema
horrível.
Não repita comigo [2006].
nunca diga nunca.
nunca faça como eu -
que só agora, já o disse 2
ou 3 vezes.
nunca diga nunca.
nunca diga nunca diga nunca.
nunca diga nunca diga nunca diga nunca.
em tempo algum; jamais.
não siga o meu exemplo.
nunca escreva nunca.
nunca escreva nunca escreva nunca.
nunca escreva nunca escreva nunca escreva.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
Crítica de "Daft Punk's Electroma" [2006].
A dimensão existencial da máquina
Seria preciso compor esta crítica não com palavras − mas com sons eletrônicos; com formas digitais; com estroboscópios; com eletrocardiogramas etc. Bips curtos, alternados com bips longos, e flashes coloridos de luz artificial. Ou então escrevê-la: mas com palavras cromadas; metálicas, texturizadas. Olhamos para a tela e pensamos: um texto não vai fazer jus a isso; seria preciso responder com imagens; com outras imagens. A máquina textual (em crítica) tem a capacidade de expandir e elasticizar a matéria fílmica, captar dela (assim como dar a ela) outras ressonâncias. Dependendo do operador, mas também dependendo da matéria. Neste caso, por exemplo, o texto poderia oprimir, pois há algo de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968); há algo de Ano Passado em Marienbad (1962); há algo da série Cremaster de Matthew Barney; filmes que são muito discutidos e teorizados, mas que permanecem experiências irredutíveis ao tempo passado; eles ainda precisam ser vistos; eles ainda pedem para ser revistos, no presente. Eles engolem todos os textos conclusivos. Não poderia nem mesmo dizer que vi Daft Punk’s Electroma (2006); seria mais apropriado dizer que estive vendo. I didn’t saw it; I have seen it; I have been seeing it. São filmes do infinitivo e/ou do gerúndio. Ver ou Estar Vendo. Poder-se-ia tentar com este filme, talvez, o experimento de se escrever a crítica durante a própria sessão, enquanto se o assiste; com a condição de que não se releia ou conserte o texto posteriormente; por outro lado, não seria aconselhável, neste caso, desligar-se da tela para fazer longas anotações − isto seria outra traição. Então, anotações curtas, sem tirar os olhos da tela. Então, conectar na cabeça uma das extremidades de um plugue, do qual a outra extremidade estaria conectada a uma máquina de captar pensamentos e transformá-los em gráficos. Uma espécie de ressonância magnética ao vivo.
Comecei com sons eletrônicos, formas digitais e estroboscópios. Por isso é necessário adiantar que Daft Punk’s Electroma é filmado em película; raramente utiliza eletrônica em sua trilha musical; e não possui ritmo de videoclipe em sua montagem. Mas a relativa ausência concreta de tais elementos no entanto não os retira totalmente daquele universo; pode-se ainda dizer que o filme é eletrônico, digital e estroboscópico. Além disso, ele utiliza algo de muito especial que o cinema contemporâneo vem enxergando no videoclipe: a conexão inseparável entre música e imagem. Wong Kar-Wai, por exemplo. A música não sublinha a imagem, a imagem não ilustra a música: ambas se mesclam e se individuam juntas num só momento poético; momento de poesia oriental. O deleite audiovisual nunca é puro, nunca é mero; só se crítica negativamente um filme por esse motivo se ele ainda assim lança mão de uma linha narrativa apenas como pretexto para uma estetização formalista. No filme de Guy Manuel de Homem-Cristo e Thomas Bangalter, assim como em 2001 e outros, não é que a forma seja o próprio conteúdo; é que o conteúdo sai da própria forma: é criado por ela e em seguida a ultrapassa − e fica difícil separar ambos os termos. Não é um filme de espetáculo, no sentido estritamente sensorial. No entanto, a forma nos assombra. Nem um filme de reflexão, no sentido estritamente simbólico. No entanto, o conteúdo escapa e convida, escapa e convida. É um filme abstrato.
Daft Punk’s Electroma surpreende por escapar das armadilhas figurativas nas quais poderia facilmente cair, dado seu tema. O que se vê ali não é, de modo algum, uma dicotomia entre homem e máquina. Muito menos uma mera inversão de papéis entre tais elementos: não são exatamente robôs querendo ganhar ou recuperar uma suposta humanidade perdida, nem algo próximo a isso. Ele opera, na verdade, a abolição daquela dicotomia, para sugerir ao espectador que − sim, o homem é máquina. Se o homem cria a máquina, é porque é ele próprio máquina, é porque ele próprio vê e sente máquinas. E quando ele a cria, não está se distanciando da natureza; ao contrário, está indo de acordo com ela; aprendendo com ela. Muito já se falou sobre a linguagem como especificidade do homem; e outras filosofias mais vitalistas já disseram que o homem é o único animal a perceber o ser das coisas; mas foi necessário chegar a uma outra conclusão, menos metafísica, menos ilusória: o homem é o animal que enxerga e vive a natureza como processo de produção (ver Deleuze e Guattari em O Anti-Édipo). O homem é máquina não apenas porque funciona como tal, mas porque percebe o funcionamento maquinal do universo e não cessa de conectar peças de diferentes naturezas para produzir máquinas compostas (ou seja, o homem é também um mecânico): cavar a terra, jogar a semente e fazer a dança da chuva − é máquina. Como um dos robôs protagonistas deste filme, querendo se auto-incendiar: há o sol e há sua mão; basta um elemento intermediário (um espelho) para chegar ao efeito desejado. É essa a visão maquinística: não mais a essência do fogo, a essência das coisas, já que todos os corpos são gerados do contato contagiante entre diferentes efeitos e partículas − em vez disso, que elementos é preciso combinar para gerar determinado efeito, determinado composto? É essa a questão. E nem se pode mais dizer que a especificidade do homem seja criar sistemas secundários que se opõem à primariedade da natureza; pois se a própria natureza é maquinística, os sistemas humanos são tão secundários (ou primários) quanto os dela. É tudo questão de conectar peças: às vezes funciona − e uma máquina começa a produzir; às vezes não − e é preciso tentar outra combinação, de um outro jeito. A própria teoria evolucionista de Darwin se aproxima disso: a natureza foi tentando, tentando, conectando, até que uma máquina começava a funcionar: a máquina vegetal, a máquina animal, a máquina humana. Os pulmões para respirar; o coração para bombear o sangue; o cérebro para reter informações e criar pensamentos; tudo conectado como peças de máquina; sem uma dessas peças, a máquina pára. Os elementos e as condições necessárias para a vida: não dá para se elevar, furtar-se disso, abstrair a vida disso. Como pensar nossos corpos sem o ar para respirar; o ar que vem do lado de fora, conecta-se ao nosso sistema respiratório e é novamente modificado e expelido? É essa a outra individuação existente: o agenciamento de multiplicidades, que consequentemente desfaz qualquer cisão mais rígida entre interior e exterior. Quem solicita o domínio absoluto de um Sujeito, resiste às máquinas. A natureza também é mecânica.
Só resta dizer que quando dizemos máquina, não queremos evocar algo sem sentimento, sem afeto. Muito pelo contrário. A máquina é precisamente o auge do afeto: é preciso que um corpo afete outro, que uma alma afete outra, para que uma máquina comece a funcionar. O oposto da máquina é que é frio e sem sangue. Daft Punk’s Electroma até nesse aspecto é bem sucedido. As seqüências em que os robôs andam aparentemente sem rumo através de um deserto, os robôs melancólicos − é a dimensão existencial da máquina. A máquina é mesmo o pressuposto de qualquer sentimento ou afeto. A escolha de paisagens desérticas ou minimalistas, em vez de cenários urbanos caóticos, sustenta a hipótese de que os Daft Punk também pensam que a máquina não é uma especificidade do mundo moderno; e que o homem sempre foi cibernético. Ver-se como máquina não é necessariamente uma visão capitalista; ao contrário, é ver-se como natureza, e natureza humana, em oposição ao vitalismo filosófico que pedia ao homem que se despisse das máquinas para afirmar a potência “natural” da vida. Deixar-ser? Nem a natureza o faz. Se a natureza realmente respeitasse o ser das coisas, nada seria criado. A própria natureza faz colagens; toda vida é híbrida. A diferença é que o homem percebe o funcionamento da natureza, e sabe conectar; sabe que para criar é preciso destruir; enquanto a natureza destrói e cria sem saber. Dessa forma, os rostos humanos artificialmente obtidos pelo par de robôs começam a derreter, e derretem ao longo de muitos minutos numa belíssima cena passada no interior de um banheiro, em frente a espelhos, as lâmpadas falhando, a música tocando, e os rostos humanos se desfazendo... Os rostos especificamente humanos, que só podem ser obtidos artificialmente, caem no chão pouco a pouco. E o homem não consegue mais ser específico, distinto ou destacado da natureza. O homem recai no meio, e atravessa o deserto; e é atravessado pelo deserto. O homem não consegue viver sozinho; desenvolver-se sozinho; mas também não consegue se autodestruir sozinho; e pede auxílio à potencialidade criadora-destruidora da artificialidade que é própria à natureza.
02/10/2006 - para www.almanaquevirtual.com.br
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
Sangue [2005].
há sangue nos meus punhos...................
........................................muito sangue.
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........do lado de dentro...........................
..............................ainda correndo........
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....O sangue é líquido..............................
a falta dele...............................LIQUIDA.
Nomes [2005].
porque "elefante" não se chama
"cadeira"?
porque se assim fosse, nós
perguntaríamos: "porque 'cadeira'
não se chama 'elefante'?"
Bala perdida [2005].
Não existe bala perdida,
se ela sempre encontra um corpo.
O corpo de alguém que alguém ama;
e que outro alguém já não ama mais.
Novos pés [2007].
Os pés mais felizes que já tive, na verdade,
não precisam de um chão.
Eles são tão felizes que pisam pesado,
com gosto, sem cuidado,
e aproveitam as rachaduras.
Eles deslizam. Eles flutuam.
Mais eu [2005].
eu sou mais eu.
a cada dia que passa, eu sou mais eu.
e a cada dia que passa, eu sou mais eu.
pouco a pouco, a cada dia que passa,
eu sou mais eu.
e, se-deus-quiser, um dia chego lá.
Gelo grosso [2005].
sequei minhas glândulas lacrimais
e fui deitar ─ com a alma molhada,
corpo desidratado, exaurido.
me restou uma casa ─
que é somente uma construção de concreto
para proteger corpos vivos do mundo exterior;
mas eu insisto em colocar emoções na coisa.
me restou uma música ―
que são apenas barulhos arranjados
de modo a agradar os ouvidos; mas eu insisto
em colocar emoções na coisa.
me restou um silêncio pesado.
um silêncio como outro qualquer ―
apenas ausência de som; mas
eu insisto em colocar emoções na coisa.
me restou um sono que equilibrava uma balança
que eu nem saberia dizer o que estava medindo ―
a ardência nos olhos também não me ajudava.
acordei meio vazio, como se alguma parte de mim
tivesse ficado nos sonhos, perdida, aprisionada.
e da jukebox particular da minha memória afetiva
saiu uma música que ressoou seus acordes
perfeitos para ilustrar o meu sentimento; acordes
que iniciaram essa ressaca sem álcool, esse mar
de tempo parado que se arrasta, essa saudade
que não quer virar saudosismo
que se alastra.
afinal, vou ter que ganhar o mundo em quantos dias?
R: em quantos eu tiver a sorte de ter
disponíveis.
quero ter a sorte, a sorte de não ouvir mais aquele tom
da sua boca, tão distante. abolir esse seu aparente dom
de fazer dos intervalos a própria coisa,
a duração em si.
quero tentar dormir por toda uma semana
para depois poder voltar a sorrir. pois
você é apenas uma outra pessoa
cujo pensamento me é inacessível ―
mas eu insisto em colocar emoções na coisa.
os pés mais felizes que já tive
não sabem se terão um chão no qual pisar.
A Menina [2005].
A menina virgem
veio me pedir um
favor.
Sem muita dor
a pedi que
preenchesse
a ficha.
Mera rotina,
não há fila
de espera.
Sua boneca
velha olhou
para mim
desconfiada;
sua dona já
não cuida dela
como antiga-
mente;
e ah eh ih oh uh!
um período antecipado que sai na lavadora, uma nova brincadeira aprendida;
o rito de passagem mais promissor, temporadas mais generosas, o diploma a espera num novo setor.
Borboleta [2005].
borboleta voou.
escapou da rede
da menininha loira
que começava a tomar forma
a se destacar, curvilínea,
em meio às linhas retas
do seu envoltório.
da menininha loira
que há instantes atrás
-- instantes apreciados pelos binóculos
de um menino escondido na casa da árvore --
ia e voltava num balanço.
borboleta voou.
pousou na minha orelha e disse:
"me emoldura. hoje é um belo dia
para começar uma coleção".
e mais um corpo tombou no pátio,
acompanhado de uma mente nova
que descobriu que a ingenuidade
é a maior safadeza dos tempos.
e mais um corpo tombou
por cima de outro,
rumo à nova satisfação:
o balanço agora é outro.
Tempestade [2005].
fiz tempestade em copo d'água
e bebi tudinho
gole a gole
goela a baixo.
depois senti o estômago
meio revirado.
Sem Título [2005].
meus pés ainda não me disseram
se vão conseguir me manter de pé.
a informação vem correndo pelas veias
e neste momento deve estar em algum lugar
perto das canelas.
aguardo ansioso por uma resposta;
espero não ter uma surpresa
que seja desagradável aos meus joelhos.
Cartas [2005].
as cartas c/ o passar dos seculos
passaram a se amar sozinhas, autonomas
s/ remetente ou destinatario.
a chorar c/ o extravio da amada
e dizer: "naum julguem pelo envelope!"
"os envelopes enganam!".
como elas se sentem infieis (!)
qndo o serviço postal as larga
no endereço errado.
as cartas ao passar dos anos
sentem-se abandonadas,
s/ cola, s/ saliva,
s/ sangue, s/ selo,
s/ um poeta p/ dar-lhes o zelo e o status
q palavras inventivas proporcionam.
as cartas no auge do desespero
e da incorrespondencia amorosa
atiram-se voluntariamente no fogo
das lareiras;
deixam-se levar pelo vento
escrivaninha abaixo!
pois qndo a amada enfim chegou,
atrasada, percebeu-se q seu envelope
havia sido aberto e recolado, violado.
entao se corre e se rastreia o endereço
intermediario do extravio e se joga o pilantra
no triturador - onde ele vira espaguete d papel!
enqto isso uma outra carta apaixonou-se
por 1 cartao postal. mas este jah estava
prometido, adereçado, destinado.
entao, esfregou-se no tinteiro e desenhou
letras d suicidio em seu corpo formato A4
e deixou-se tombar na lixeira,
foi p/ o recicla-dor.
Sobre a maquiagem [2007].
A maquiagem é menos verdadeira do que a pele limpa? A pele limpa é menos verdadeira do que a carne crua? A carne crua é menos verdadeira do que o osso nu? O osso nu é menos verdadeiro do que o nada?
A vontade de verdade é também uma vontade de morte, vontade de nada. Pois se a verdade está sempre antes, no que vem antes - em sua busca, só regrediríamos, até pararmos no vazio. Cinco, quatro, três, dois, um, zero.
Há quem pense que a batata crua é mais verdadeira do que a batata assada...
A maquiagem é apenas uma dimensão a mais numa complexidade. Não dá para estabelecer um centro, ou um fundamento, para o corpo. Tudo o que existe é, de alguma forma, maquiagem. Tudo é adjetivo.
A natureza é extensamente artificial.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Sombras [2005].
minha sombra é a primeira (e não a última)
a qual eu dirijo minhas desconfianças: na escuridão
ela é a primeira a me abandonar.
quinta-feira, 4 de janeiro de 2007
Meninos-de-rua [2007].
não modernizemos os índios!
nem alimentemos o esfomeado.
nem abriguemos os meninos de rua.
senão, eles deixam de ser meninos
de rua.
é preciso respeitar a identidade
do outro
(?)
O que dizer [2007].
não há mais nada a dizer
sobre esse mundo
sobre essa vida;
tudo o que pode ser dito
é sobre outro mundo
sobre outra vida,
artificialidades.
outro mundo que se dá nesse mundo;
outra vida que se dá nessa vida,
não existem flores de verdade.
será bom
comer pelas beiradas
e anestesiar os núcleos;
rasgar um pouco os livros,
espanar a poeira,
e dar maior atenção às orelhas.
as bibliotecas são tão importantes
quanto o fliperama.
é preciso escrever livros já rasgados.
vomitar no papel.
Chinês [2007].
há sempre um momento do dia
em que me torno chinês;
é um momento-kodak.
um instante de brilho,
efêmero; como polaroid.
o relógio bate diferente;
meus olhos se encolhem,
e com os polegares das mãos
abertas, eu os puxo para trás.
à minha revelia.
quando vejo,
já estou preparando meu chá.
a água ferve, e o sachê verde-floresta
já espera impaciente
caído no interior da xícara.
em mim
toda essa porcelana frágil
no lugar da carne.
um quimono colorido.
uma esteira.
ajoelho-me pela primeira vez
para adorar um deus de papel;
um origami sagrado
que eu sei não ser chinês.
o dragão de 7 cabeças
se move sutil
ameaçadoramente.
mas quando olho para ele
ele pára.
para me fazer de maluco.
eu fecho os olhos.
e choro, assim, de olhos
fechados.
as lágrimas vão
para o meu estômago.
& tudo o que eu queria
nesse fim de tarde,
era comer muito, como um porco.
ser gordo, muito gordo,
e lutar sumô às cinco da tarde
lá no Japão.
& no fim desse minuto
de segundos fugidios
como eu queria sair da China
e adorar um deus de neón.
mas não dá pra ser.
BBBBB [2005].
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBATER NA MESMA TECLA.
Do Ré Gi [2004, em parceria com Giovanna Cyríaco].
quatro anos de idade.
já anda de bicicleta
sozinha, sem pai nem
mãe e nem tia
e nem tio e nem avô
e nem vó e também
nem prima irmão e filho
irmã e filha irmão e filha
irmã e filho órfã
sozinha.
e um coração.
faz um coração
Gigi, irmã da Marcela
e também Carol Bebel e
também sem dindinha
nem dindinho, porque sim
eu sim eu sim
e vovó tia
Giovanna.
amor da vovó.
lá, si, dó, picolé de uva
bolinho de chuva
e também ovo da páscoa
de chocolate e também
cabelinho bonitinho.
Gigi, roupinha de bailarina
sem lacinho e vestido
com saia de renda que
ainda não tem, por quê, um batonzinho
bonito na boca dança
dançar com vestido bonito
até escada fim.
todas as bailarinas com batom
porque são lindas e minhas primas
quem são minhas primas?
eu sou a prima Di.
eu sou Gigi, amor de piripiri
vou mimir, 1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 13, muis carneirinhos
eu conto, porquinho e cavalo.
retângulos ângulos
bolo e lanchinho
colégio, lá pi mais crilí
mais ferrí – entendi! – ferribí
mixí rabí ebê ebití ebé
ribí robó robórra cerrí
borrí borrí borrinha burrí rá
ré rí ró rú ré rí ró
i ó a bé tí ró má sé
sí picuí ramití má rá estrela
estrela e céu lua céu estrela
Gigi, vai patinar
refrescar para o sol não errar
e o vento não brigar
porque o sol briga
e a mãe da lua briga
carrinho Patstol morreu
a mãe da lua briga
lumbriga porque o sol briga
e o sol faz muito calor
Gigi, pintando uma boneca
de pano – cadê o papel?
Giovanna onde está?
eu tô escondida.
tem que me achar.
Oh a té ramshí
chocolate
cachorrinho
gatinho cocô coshô
gatinho cachorro
tem que me achar.
brinquedo Bob o construtor
constrói coisas que precisa
com uma caixa na cabeça –
é legal, assim? peraí
quando acabar a música eu vou.
eu já estou indo embora
acabou a música.
Gigi que desenha desenhos
lindos muito bonitos
e depois rasga eles.
e nem sabe por quê.
porque não.
Gigi diz que já é gente grande
porque sim,
já sou gente grande
já tá do tamanho da Carol
já tá do tamanho da prima maior
bem maior do que ela
eu tô do tamanho dela
eu estou. Não, não sou mais criança
porque não, porque já sei carregar tudo,
Gigi diz.
Gigi rasga o desenho
Gigi diz que rasga o desenho
porque tem coisa que não pode
tem coisa que tem que reciclar.
reciclar papel, não mostra o desenho lindo
que faz e que rasga só porque já é gente grande.
Gigi fala da morte. Gigi borra.
Gigi quatro anos de idade.
Gigi não aceita que eu escreva assim
sobre ela em ritmo maquinal
fica cansada de ser objeto
e revida me faz objeto maquinal
me imita num canto fingindo escrever
sobre mim falando "Tio Lolo!" assim como eu
venho falando "Gigi!' e vírgula, ao começar
os parágrafos e esperando que ela complete,
porque ela já é gente grande.
Gigi cisma que quer reciclar minha caixa
de sapato
PRA QUE RECICLAR? - pergunto.
PORQUE SIM. - responde.
Gigi, em vez de subir ou descer a escada
fica atravessando de um lado pro outro
pervertendo o sentido da coisa.
Não interessa porque.
Ninguém vai gostar do desenho
que tá rasgado. Não, ninguém vai ver
nem pegar o desenho, porque já tá rasgado,
Gigi diz.
isso é bom!
esse pum é bom!
come o pum!
isso é cerveja
isso não é coca
vamo pensar
que é cerveja
isso,
Gigi diz.
Gigi diz que bebe cerveja
corre pra vó e diz
que bebe cerveja pra caramba
Gigi livre
Gigi Gibi Gingibre
Órfã no velocípede
O Vizinho Feiticeiro [2006].
Corriam, espalhavam-se boatos, rumores de que o novo vizinho era um feiticeiro. Sendo isso verdade ou não, os cochichos amedrontados das donas-de-casa foram suficientes para envolver a peculiar figura daquele homem em mistério. Ele cultivava longos e brancos cabelos, bigode e barba. Morava sozinho. Raramente era visto fora do seu apartamento.
No início, a maioria dos moradores do prédio ria de tais comentários e teorias, achavam-nas verdadeiramente absurdas. Mas duas semanas depois as suspeitas tornaram-se unânimes, quando, exatamente ao meio-dia, uma legião de mais de quinhentos ratos invadiu o prédio e fez pressão contra a sua porta, enquanto na rua o sino da igreja badalava repetidamente. Há testemunhos de que o homem, do outro lado da porta, murmurou algumas palavras em uma língua desconhecida, e imediatamente os ratos deram meia-volta hipnotizados e seguiram em fila indiana, dóceis como ovelhas, de volta ao esgoto.
Naquele mesmo dia, à noite, para meu completo pavor, ele esbarrou em mim na escadaria escura. Meu corpo inteiro estremeceu de susto. Arrepiei-me, senti uma intensa tontura, e recuei dois passos, apoiando-me no corrimão para não cair. O homem lançou em mim um olhar profundo, investigativo, e com sua voz perfumada proferiu a seguinte frase:
- Seu nome é Lauro.
Quase desmaiei. Arrependi-me imensamente por ter subido aquela escada sozinho, sem ter esperado meus amigos, que continuavam lá fora brincando. Em frações de segundo dezenas de imagens aceleraram-se na minha mente: eu, sendo hipnotizado pelo feiticeiro, sendo carregado para dentro do seu apartamento, sendo cobaia de um de seus rituais malignos, minha família me procurando, eu desaparecido por dias, semanas, meses, amarrado a uma cadeira, preso numa jaula, ao lado do seu caldeirão.
- Lauro Mendonça. Estou certo?
- S-s-s-sim. Por que? - consegui perguntar com esforço, encolhendo o corpo e temendo muito as próximas palavras que sairiam da boca daquele estranho homem. Lentamente, ele enfiou a mão no bolso direito do seu casaco e de lá retirou um envelope selado, de cor laranja.
- Então essa carta deve ser pra você. Foi parar na minha caixa, por engano. É uma merda, meu rapaz. Não se fazem mais carteiros como antigamente.
PolÓtica [2005].
embace 1 pouco a visão
e veja como não há mta diferença
entre as 2 palavras abaixo:
COMUNISMO CONSUMISMO
Vide Bula [2005].
FORA DO ALCANDE DAS CRIANÇAS*
*se elas, na ponta dos pés e c/ os
bracinhos esticados ao máximo, têm
1 metro de altura, coloque o medi-
camento preso por um barbante no teto
do banheiro a 1 metro e 10 cm do chão,
de modo que nem pulando e se debatendo
em desespero pelo alívio de uma dor
elas o alcancem.
Parabéns! [2005].
mais dia menos dia mais dia menos dia mais pressa
menospreza mais dia menos pára!
para-choque para-normal para-sita
para-peito para-brisas para-lamas
para-doxo para-lelo para-íso
para-raio para-quedas para-pente
para-laxe para-deiro para-fina
para-fuso para-nóia para-béns!
e quem dizia "muitos anos de vida"
na verdade queria dizer:
"que você não morra muito cedo, meu filho"
Livre arbítrio [2005].
eu tenho meu livre arbítrio:
faço o que quiser da minha vida
e da vida dos outros também.
eu tenho meu livre arbítrio:
a liberdade para ser arbitrário
com tudo
e com todos.
Corpo estranho [2005].
Corpo estranho>>>>>>
>Cabeça de chave Cabelo de anjo Testa de ferro
>Olho de peixe Olho mágico Nariz de palhaço >Orelha de livro Boca de fumo >Dente de alho Língua de sogra >Garganta profunda Braço direito Mão boba >Palma de ouro Punho de aço >Carne assada Coração de galinha Dedo duro >Pernalonga Barriga de chope Costela de Adão >Bunda mole Batata frita Canela em pau Pau de arara Saco plástico Bexiga de festa Coxa de frango Calcanhar de Aquiles Pé quente Pé frio Sistema nervoso >Osso duro de roer.
Espantoso [2005].
o espantoso é que existem coisas para serem vistas e TAMBÉM os olhos para verem o espantoso é que existem sons barulhos ruídos para serem escutados e TAMBÉM os ouvidos para escutarem o espantoso é que existem cheiros e TAMBÉM o nariz COM olfato para cheirar o espantoso é que existem texturas para serem sentidas e TAMBÉM a pele COM tato para sentir o espantoso é que existem coisas que têm gosto e além disso TAMBÉM a boca COM língua COM paladar para sentir para provar o espantoso é que
os pressentimentos são as próprias desgraças
e o sexto sentido é o menos espantoso
de 0 a 10.
Entrevista com Giovanna Cyríaco (Gigi) [2006].
1) O que você é?
R: Gente.
2) O que você entende por gente?
R: Um bicho. Porque em um planeta vive um montão de terra e legumes para animais; e pessoas são gente, só que são desenho, têm pilhas mas não são robôs, só que são de outro planeta, vivem na rua, você tem que descobrir...
3) Gente é bicho?
R: É. Não é diferente. Porque eu vi um bicho que é igual gente. Macaco. Porque um é coisa de animal; os macacos comem bananas; eu vi uma pessoa que parece macaco; um bichinho é como gente; comum é o macaco que é tão diferente; então eu vi uma estrela que é igual ao sol, uma estrela muito diferente que o sol, ela brilha, que se chama brilha, brilha, estrelinha...
4) Qual a diferença entre pessoas e animais?
R: Eu não sei te falar isso.
5) O que você acha que tem no céu, depois das nuvens?
R: A lua. O sol, as estrelas. Os aviões. Helicópteros. Pônei voador. Gente que tá voando e um papagaio. Cachorro voador. Gato que tá no barco voador. Avião com pássaro. Cachorro no céu. Avião com helicóptero. Animais. Zoológico. Gigantes. Castelo. Cadeira. Barco. Casa.
6) Por que você acha que as pessoas e as coisas precisam ter um nome?
R: Uma coisa não tem nenhum nome. É que um gatinho com um cachorro não dá certo, uma menina com um homem não dá pra ficar com certo, ou talvez gente, porque gente é muito especial, alguns bichinhos são joaninhas, então no cérebro dos animais não são como n'O Mágico de Oz, o leão não protege gente, furacão é furacão, cabelo é cabelo, 7 meninas é 7 meninas, homem é homem, até céu, até parede, até obra, até tudo lá em cima... Gostou dessa canção?
7) Você acha que o armário, o sapato, o copo, o chão, enfim, todas as coisas, têm vida? São vivas?
R: Sim. Tá vivo.
Um dia como outro qualquer [2006].
Sim, aquele dia era um dia como outro qualquer. Parecia qualquer outro dia, menos ele próprio. Não tinha nada a ver consigo mesmo. Olhávamos ao redor e não compreendíamos coisa alguma. O que houve com esse dia? Parece meio ontem, meio amanhã. Parece qualquer outra página do calendário, mas não tem absolutamente nada que nos faça sequer recordar de hoje. Parece ficção científica. Livro barato. Está com jeito de terça-feira, meio bege meio cinza, de tarde com brisa e flerte na esquina. Olhos de segunda, despertos e sonolentos de uma só vez. Boca de domingo, ressecada pelo frio e fazendo bicos de cigarro, e manteiga de cacau. Bochechas de sábado, coradinhas de sexo e maquiagem. Maçãs de quinta-feira, ossos bem esculpidos e indiferentes ao resto do mundo, um pouquinho ansiosos. Cabelos de quarta meio volumosos de lua cheia e supostamente é uma sexta. Que aconteceu com hoje? Até o jornal parece não saber do que está falando. Tem cara de 28 de fevereiro; de 12 de novembro; de 15 de junho; mas não parece hoje mesmo, é um dia meio sem cara. Descarado. Duas caras. A sensação era meio estranha; meio normal. Era exatamente o contrário de uma déjà vu, se isso existisse. E era a coisa mais importante do mundo que a Mariazinha seduzisse o doutor para conseguir um pirulito. Estávamos presos no tempo, ou quase. As crianças estavam todas caindo dos balanços. Ralando os joelhos na terra. Ameaçava chover, exatamente como no mês passado. Fernando, sentado no banco, acariciava uma fotografia e elevava um vidro de perfume quase vazio às suas narinas, e era como se as primeiras gotas da chuva saíssem dos seus olhos, tão verde-claros.
"Vai trabalhar, cara! Chega disso!" gritei impaciente. Aproximei-me pisando forte. Comi a fotografia, bebi o perfume e atirei o vidro longe. Fernando saiu chorando. Senti-me vivo. Acabei descobrindo que dia já era.
João e Maria [2005].
Só João e Maria podem dizer "Lar,
Doce Lar", porque de resto todo lar
é meio-amargo.
terça-feira, 18 de abril de 2006
Tudo o que o melodrama permite [2006].
Ainda que não comumente notadas, são notáveis as contradições que circundam e permeiam o caminho traçado pelo gênero do melodrama na história do audiovisual. Tais contradições, que há muito fazem necessária uma nova valoração do gênero, configuraram-se através da bipolaridade fundamental do dispositivo cinematográfico – ou cinema de arte ou cinema comercial – e no freqüente conflito entre estes dois pólos, que gerou renovadoras interpenetrações e não somente no universo do melodrama (como a erudição espetacular ou o espetáculo erudito de Ano Passado em Marienbad, 2001: uma Odisséia no Espaço, etc.). Os elementos que emprestaram ao melodrama uma tonalidade empobrecida e uma aura de ‘subproduto’ no imaginário audiovisual contemporâneo, foram também os elementos aproveitados por cineastas que utilizaram o gênero como válido e poderoso meio de escritura artística e/ou crítica social: a saber, o aspecto inverossímil de seus conflitos, a fragilidade da construção psicológica de suas personagens e a tensa presença de suas motivações morais para manutenção do senso comum. É este o seu maior paradoxo. A redundância conceitual, o sentimentalismo e o exagero ornamental dos espaços físicos melodramáticos, que aproximaram o gênero de uma estética ‘calorenta’ e do pejorativo rótulo de ‘brega’, constituíram simultaneamente a matéria-prima manuseada por outros cineastas mais sofisticados que visavam alcançar, ao contrário, uma frieza emocional e um sublime estético. No entanto, como veremos, parte deste segundo grupo de cineastas, para obterem tal efeito, serviram-se do gênero precisamente como máscara estilística, ou seja, como um sistema fixo de signos fixados que, quando re-estruturados, re-configurados, pervertidos de uma tal maneira, possibilitam uma espécie de auto-crítica, um distanciamento do enunciador em relação ao seu enunciado. Em outras palavras, pode-se dizer que tais cineastas mantiveram apenas um dos pés no pólo do cinema dito ‘artístico’, a todo o tempo apropriando-se de uma linguagem estabelecida, justamente, no outro pólo – o do cinema dito ‘comercial’, feito para as massas – e neste mesmo duplo movimento submetiam a máscara melodramática a um novo esculpir. Faziam-na rachar. Aliás, se ainda recorremos por um momento a esta antiga e binária divisão da produção cinematográfica, é para sermos justos ao notarmos, em seguida, que estes cineastas glorificadores do melodrama não se posicionavam em um ou outro pólo, nem em um e outro ao mesmo tempo, mas, em vez disso, percorriam sutilmente toda a distância que havia entre arte e comércio. Percorrer a distância que há entre dois termos significa habitar um terreno de indistinções e indiscernibilidades.
O melodrama, fundamentalmente conectado à estética operística do adorno, do excesso de camadas significantes e do virtuosismo técnico, encontra-se na obra de brilhantes cineastas do período dito clássico como, por exemplo, Josef von Sternberg e Max Ophüls, entre outros. Porém, tanto no primeiro – pela dimensão fetichista e subversiva de sua obra – quanto no segundo – pela sofisticação de impulso vanguardista que o afastou radicalmente do registro popular – o melodrama já aparece adaptado, como referência transmutada por um ideal estético que se distancia bruscamente do registro primário do gênero e pede por outra classificação. Portanto, não era mais melodrama. Foi um terceiro estrangeiro migrado para Hollywood, chamado Douglas Sirk, o responsável pela construção da mais contundente e requintada expressão do melodrama ainda assentado em seus moldes clássicos, ao mesmo tempo em que apontava na direção ou mesmo concluía a necrose destes moldes. Possuindo com Sternberg e Ophüls muitos traços em comum, Sirk trifurcou este caminho por manter-se, ao menos aparentemente, nas configurações fundamentais do gênero, porém, a todo o tempo submetendo-as a dobras e rachaduras que aos poucos começavam a revelar sua dimensão igualmente subversiva e vanguardista. A maior diferença entre Sirk e aqueles dois, no que diz respeito à sua relação com o melodrama, é que os outros deram um longo passo adiante no tratamento do gênero, que então aparece em seus filmes já modificado: em seus filmes, há isto e aquilo de melodrama, mas são apenas fragmentos estéticos, influências, sobras de lá que seus pés arrastaram para cá ao efetuarem aquele passo adiante. Sirk, por sua vez, não efetua previamente este passo adiante, mas, em vez disso, deixa seus dois pés seguros em cima do melodrama, para em seguida performar em sua superfície um habilidoso e incessante sapateado, até que aos poucos esta superfície rache e revele um gênero em ruínas, um gênero que, em Sirk, modifica-se durante o filme. Sirk operou este feito de tamanha ambigüidade através da sutil ironia com que tomava distância em relação à própria linguagem que utilizava e ao conteúdo que mostrava, o que imprimiu aos seus filmes um fluxo metalingüístico que decorria de maneira quase imperceptível aos olhos do espectador comum. Porém, deve-se sublinhar que esta metalinguagem de Sirk é algo de muito extraordinário, pois, paradoxalmente, não se dá para além da linguagem, ou seja, em algum outro plano simbólico que extrapole o plano fílmico literal: suas imagens são como cristais, caleidoscópios nos quais você escolhe o que ver, que dimensão ver, sem precisar passar necessariamente por abstrações. Em seus filmes, mesmo os fluxos interrompidos que tendem a escorrer para o plano metafísico são de caráter material, do plano, da superfície, por exemplo, quando suas personagens se projetam e perdem a materialidade de seus corpos no diluído e inexistente interior de um espelho (objeto-síntese desta idéia, ao mesmo tempo físico e não-físico, abstrato e figurativo). Seus filmes permitiam, como qualquer outro melodrama clássico, a projeção e a identificação dos espectadores em relação às personas que vivenciavam a trama. Porém, diferente do que ocorria nas outras manifestações do gênero até aquele momento, sua câmera não acompanha o lamento, não sofre em si mesma a visceralidade das emoções que latejam no ‘roteiro’. Ao contrário, mantinha distância e postura quase estóicas em relação aos conflitos e lágrimas que escorriam dolorosamente à frente de sua lente. Há, então, duas possibilidades simultâneas: sentir o melodrama executado e sofrido pelos personagens, e/ou perceber a distância que o autor toma deste próprio melodrama: e passar a sentir, assim, o que se passa entre o autor e o produto, pois muita coisa se passa aí. Distância não significa ausência, falta ou negatividade: muita coisa acontece numa distância, e são coisas que ultrapassam o domínio distintivo dos termos que ela separa, ao ponto de desfazê-los enquanto necessários, ao mesmo tempo em que insiste em atraí-los um ao outro.
Há certamente uma frieza em Sirk: de quem celebra um gênero ao mesmo tempo em que o corrompe. Frieza que veríamos mais tarde em Fassbinder, um de seus admiradores e influenciados. Como bem observou Jean-Loup Bourget em seu ensaio intitulado “Sirk and the critics: a critical survey”, publicado em 1978 pela revista nova-iorquina Bright Lights,
Sirk sempre obtém um enorme distanciamento, nos seus melodramas, através da estilização e da paródia. Através do uso sistemático da imagem-clichê ele cria uma distância, não entre o filme e o público (as mulheres nunca largam seus lenços nas sessões de Sirk), mas entre o filme e o diretor. Este distanciamento (...) dá ao material uma função simbólica.
Natural da Alemanha e crescido na Dinamarca, Douglas Sirk, com os melodramas que realizou ao longo da década de 1950 nos estúdios da Universal, em Hollywood, inaugurou um padrão estético inconfundível, nunca antes visto e posteriormente muito relido e requisitado. Além de revolucionar as formas narrativas do gênero, ele também nos serve como contraposição à visão genérica do melodrama audiovisual como lugar de pobreza estética e precariedade técnica. Estabelecendo uma longa e bem-sucedida parceria com o diretor fotográfico Russell Metty e o diretor artístico Russell A. Gausman, Sirk elaborou composições de grande complexidade e beleza que instalam o espectador numa experiência que atinge o êxtase audiovisual. Seus movimentos de câmera são meticulosamente coreografados – e esta é uma de suas heranças que podemos encontrar, hoje, em alguém como Wong Kar-War, outro admirador/influenciado, por exemplo – pois como o próprio Sirk alegou a Jon Halliday no livro-entrevista de 1971, o deslocamento da câmera (em inglês, motion) é o que desloca a emoção do espectador (em inglês, emotion). As cores também possuem papel fundamental em suas imagens, pois funcionam sempre como meio estético de colocar o espectador em contato, emocionalmente, com o universo sentimental da personagem. Afetos. Em Sirk, os afetos estão acima das idéias: anunciando e colaborando com a revolução contemporânea de superação dos fundamentos metafísicos: e mostrando como uma má idéia (moral) degenera os afetos e destrói um corpo, obrigando-o a abstrair-se. Metty faz uma utilização brilhante da cor como campo afetivo, sensível, e não é sem mérito que hoje é recordado como um dos maiores fotógrafos de sua época, pois trabalhando com Sirk chegou ao ponto de experimentar, com muito sucesso, transições cromáticas dentro de um mesmo plano (sem cortes) para pintar, em movimento, as tremulações emocionais da personagem, as variações mais instantâneas de seu mood. O outro Russell (A. Gausman), diretor de arte, também concebia com segurança e fausto os cenários, os objetos de cena, principalmente os muitos espelhos, que não são de menor relevo no discurso estético do cineasta, que tem como uma de suas habilidades especiais a perfeita orquestração do não-dito. Este não-dito, a falta, a fuga, o desejo reprimido, as hesitações, enfim, os baixo-relevos da personagem, sempre repercutem nos alto-relevos dos objetos acumulados que a envolvem: e quanto mais baixo-relevos emocionais, mais objetos se proliferam no plano material. A falta gerando excessos, para esconder a si mesma. Desta maneira, quando Sirk enquadra sua personagem refletida em um ou mais espelhos – plano tão recorrente em sua obra – ele cria um cristal (como nos parques de diversão, encontrados também na clássica seqüência d’A Dama de Shangai de Welles) que nos distancia do seu corpo atual, fazendo-a projetar-se num espaço virtual, inexistente, de caráter ilusório, no qual ela irá neutralizar suas insatisfações re-configurando ou re-significando a sua própria figura.
A maquiagem está presente no cosmos estético de Sirk em todas as dimensões e sentidos. Nos planos de espelhos, a imagem é multiplamente rebatida, como se o corpo da personagem ricocheteasse de uma superfície a outra, restasse submerso num complexo e estático mar de dispositivos, ou ficasse preso num acumulado de teias de aranha significantes: é sempre uma lente que filma um reflexo nos espelhos, reflexo do reflexo, de um corpo vestido, maquiado, transfigurado: quão distante e imaterial este corpo nos aparece. Quão abstrato, abstraído. Como o próprio cineasta disse, o espelho não nos revela o reflexo fiel de nossa realidade; ao contrário, nos fornece a visão oposta, invertida, da nossa figura. Sirk desenvolvia, então, a potencialidade do espelho cinematográfico (câmera) de ser abstrato, não-figurativo, através das próprias figuras (mesmo fixas, fixadas) que mostra, para além da mimese. É, de uma maneira ou de outra, o que vemos também em Ophüls, Sternberg, Kar-Wai.
É interessante notar, por fim, como Sirk utiliza a própria retórica e estética melodramáticas como uma rede de espelhos lingüísticos e afetivos: teias de aranha significantes. Trata-se, geralmente, do que o clichê costuma fazer: reduzir e aprisionar o múltiplo, o desejante, o desconhecido, numa máscara imóvel e conhecida, familiar, para interromper os fluxos novos que necessariamente instauram mudanças, desviam os cursos. É através do clichê que Sirk opera sua ironia, pois ele lança seu olhar crítico ao clichê, fazendo-o explodir e liberar a sinceridade que ele encerra. Por esse motivo é que nos cineastas pop, e até mesmo em Wong Kar-Wai, já citado anteriormente, não se trata de fugir do clichê e passar a outra coisa totalmente original, mas de se apropriar do clichê (que há muito fez sua passagem das artes à vida) e submetê-lo a uma transfiguração, fazer o desejo passar através de sulcos, de brechas no clichê.
Cada imagem que Sirk produz tem o poder de sutilmente se afirmar como produto, autoafirmar-se como imagem, através da artificialidade simbólica de sua estética, dos cenários pomposos, do perfeccionismo das composições e dos objetos e adornos que se acumulam, apesar destes serem elementos próprios e característicos da estética ilusionista. Sirk, a todo o tempo, opera com a dimensão do ilusionismo, mas sempre revelando-o como tal. Ele constantemente posiciona sua câmera do lado de fora do cenário, ou atrás de um objeto, que fica então como intermediário entre a lente e a personagem, ressaltando assim a presença da câmera e operando a objetivação da personagem, acentuando o caráter ornamental da sua estética. As pessoas também se tornam ornamentos. Este tipo de composição é muito encontrado nos já citados Sternberg e Ophüls, assim como em Welles, enfim, cineastas que de alguma forma operam com os códigos operísticos. A impressão é de que Sirk, assim como estes últimos, ao levar ao extremo o mascaramento do natural tão comumente feito pelo ilusionismo ‘ingênuo’ hollywoodiano, revela o ilusionismo como técnica, e mais: como ferramenta propulsora da sua própria escritura – o que o conecta à estética decadentista de Baudelaire e outros. Ao invés de negar o ilusionismo radicalmente através de um distanciamento crítico à la Brecht, Sirk o afirma com força e paixão, para além das fronteiras do excesso, desta forma alçando-se àquele seu distanciamento, de outra ordem, nomeado acima pela observação de Jean-Loup Bourget. Em outras e mais apropriadas palavras: Sirk passa do ilusionismo (visto como uma técnica do engano que se contrapõe ao realismo) e da crítica do ilusionismo, a um dúbio elogio da ilusão. Será necessário enfatizar a profunda melancolia dos filmes de Sirk, e mais ainda, seu senso de decadência, no qual, por exemplo, todo o calor próprio do kitsch (decorativo e sentimental) é transformado em frieza: é somente frieza e não calor o que, aqui, o excesso gera. É com esta contradição que Sirk dota os elementos clássicos do gênero de uma função simbólica, levando o melodrama ao ápice da dualidade entre sentimentalismo e retórica, ópera e tragédia, em seguida situando-se no meio.
