quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entrevista com Giovanna Cyríaco (Gigi) [2009] - 3 anos depois


Eu: Por que o mundo existe? Por que a gente tá aqui?

Gigi: Porque a gente nasceu.

Eu: Por que a gente nasceu?

Gigi: Porque papai do céu quis.

Eu: Ele quis? Por que ele quis? Basta ele querer, que acontece?

Gigi: Ah, num sei.

Eu: Quem é papai do céu?

Gigi: Ahmmm. Papai do céu, né?

Eu: Dá pra ver papai do céu?

Gigi: É claro que não, né?

Eu: Por que claro que não?

Gigi: Porque ele tá no céu, a gente não consegue ver ele, a gente não consegue escutar ele.

Eu: O que você acha que tem no céu?

Gigi: Eu acho que tem nuvem, estrela, sol, lua, planetas também. Extra-terrestres. Deve ter cavalo também, voador. Deve ter avião. Deve ter também carro com asa.

Eu: E o papai do céu, tá no meio dessas coisas?

Gigi: Ahhhh, eu não faço a maior ideia!

Eu: Ele existe?

Gigi: Óbvio que sim, né? Mas só que ele tá no céu.

Eu: Você acha que um dia você vai viajar pra fora do Planeta Terra?

Gigi: Eu não quero, e nunca vou querer.

Eu: Por que não?

Gigi: Porque deve ser chato. E se acabar a gasolina?

Eu: Ué. Bota mais gasolina.

Gigi: Mas só que fora do Planeta Terra não tem posto de gasolina.

Eu: Mas o dia em que a gente viajar pra fora do Planeta Terra, vai passar a ter posto.

Gigi: E como você sabe disso? Você nunca foi pra fora do Planeta Terra.

Eu: Sabe por que? Vou te responder. Porque antes de existir carro e estrada, também não existia posto de gasolina. Primeiro, inventaram o carro e as ruas, as estradas, e depois teve posto de gasolina. Ou seja: quando a gente viajar no espaço, em nave espacial, vão inventar também posto de gasolina pra nave espacial.

Gigi: Será que nave espacial tem aquele buraco de colocar gasolina?

Eu: Claro. Tem que ter. (...) Você acha que existe vida extra-terrestre?

Gigi: Não, né? Óbvio que não. Eu acho que nunca teve.

Eu: Como é que você tem certeza? Existem milhões, bilhões de planetas, além do Planeta Terra.

Gigi: Mas nenhum tem isso.

Eu: Mas a gente nunca foi lá, pra ver.

Gigi: Olha, eu acho que não existe.

Eu: É, mas imagina que a gente possa ir lá. A gente pode acabar descobrindo que lá tem vida também.

Gigi: Podendo ou não podendo, eu não vou para o espaço. E se os alienígenas me amarrarem numa corda? Mas será que no espaço existe corda? Eu acho que não. Mas será que eles podem vomitar corda? Isso seria inútil, porque eu nunca quero ficar amarrada - ainda mais no espaço. Se tiver com capacete, tudo bem, mas se não tiver, se eles tirarem, eu vou morrer ali, né? Se eu não morrer vai ser sorte. Mas será que o papai do céu vai estar tão longe assim pra me proteger? Tomara que não, né? Porque eu quero que ele me proteja. (...) Tio Lolo, eu sou uma piada, não sou?

Eu: É uma piada.

Gigi: Eu sei. Hehe.

Eu: Você sabe que o homem já foi à lua? Já tiveram alguns homens que viajaram pro espaço, pousaram a nave na lua, e depois desceram da nave e andaram em cima da lua. Sabia disso?

Gigi: Você é um homem. Você já foi no espaço?

Eu: Não. Eu não. Um outro homem foi.

Gigi: Ah tá. Nenhuma mulher já foi?

Eu: Acho que não. Acho que uma mulher já viajou pro espaço, mas não pisou na lua.

Gigi: Será que ela tem sapatilha voadora? Ou casa voadora? Ou ônibus voador? Será que lá tem um monte de coisas flutuando? Seria engraçado, que aí eu poderia até morar lá - teria um monte de vestidinho bonito. Será que vai ter babadinho e vai ser rosa? Se for rosa, tudo bem. Será que lá vai ter chinesa? Aí eu quero trocar de olho - que eu quero ser chinesa. E eu também quero trocar de idioma - eu quero falar todos os idiomas que existem. (...) Pergunta alguma coisa.

Eu: Você lembra d'O Mágico de Oz? O que você tem a falar sobre O Mágico de Oz?

Gigi: Sei lá. Ele é um velho cabeçudo.

Eu: E o filme, você lembra do filme? É um filme bom?

Gigi: É engraçado, mas o da Disney é bem melhor.

Eu: Qual da Disney? (...) Você acha que é possível viajar no tempo. Tipo, você voltar pro passado ou ir pro futuro?

Gigi: Eu gostaria de ir pro passado. Quero voltar a ser neném. Ai, porque é tão legal ser bebezinha. Ah, porque aí eu posso ser recém-nascida, nascer da barriga - só que eu quero pular a parte de cortar o cordão, porque aquilo é tão nojento.

Eu: E o que mais você queria fazer no passado?

Gigi: Ir para o futuro! Do passado pular para o futuro. Pular o presente e ir para o futuro. Pular um quadro e ir para o futuro.

Eu: Por que existe Natal - qual é o sentido do Natal?

Gigi: Nascimento do Jesus.

Eu: Se você encontrasse de repente, no meio de uma floresta, com um ser que você não conhece, que não é nem como um ser humano, e nem como nenhum animal que você conhece... qual seria sua reação?

Gigi: Eu iria gritar socorro, e eu também iria matar. Ou talvez correr.

Eu: E se ele fosse bonzinho?

Gigi: E se ele não fosse - eu ia me machucar por nada?

Eu: Você sonha muito, dormindo?

Gigi: Não, eu tenho é pesadelo.

Eu: Sempre?

Gigi: É raro ter sonho.

Eu: Por que isso?

Gigi: Eu sei lá, conversa aí com Deus. Pergunta por que eu só tenho pesadelo.

Eu: Você acha que Deus sabe disso?

Gigi: É claro, né?

Eu: Por que claro, Gigi?

Gigi: Essa é a minha resposta.

(...)

Eu: Se você pudesse pedir uma coisa agora, o que você pediria?

Gigi: Eu ia pedir uma casa própria, ia querer ser dona de um hospital, pra sempre que eu passar mal, eu possa fazer curativo em mim. E eu também queria ter um carro zero, porque é legal. E eu também queria morar numa mansão toda rosa.

Eu: Você quer viajar pelo mundo?

Gigi: Você quer viajar pelo mundo? Volta ao mundo? Meu deus, isso aqui tá virando como Discovery Kids. Isso já tá me enchendo: mundo, mundo, mundo, volta, volta, volta.

(...)

Eu: Você já desmaiou alguma vez?

Gigi: Já, no hospital. O médico chamou até pessoa que chegou bem depois do que eu, aí eu fui a última, aí eu desmaiei de tão cansada, eu cheguei em casa de madrugada. E ainda teve uma briguinha lá, porque tava demorando tanto, tanto, que uma moça brigou com a médica.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

duas velocidades


rápido para não ser alcançado, devagar para alcançar. tenho duas velocidades (ao mesmo tempo).

mais próximo


quando eu pensava nela e estava com você, eu jamais me distanciava do momento. pelo contrário, me tornava duas vezes mais próximo

domingo, 12 de abril de 2009

couro


olha esse couro

brilhando no escuro

às 6

olha esse cara

com o braço peludo

apoiado;

e a mulher

que vai sentar nesse banco de couro

preto

com a calcinha vermelha

molhada.

domingo, 29 de março de 2009

romance

romance

de literatura

barata.

o melhor romance;

uma coletânea,

de série ouro.

todas essas cenas, suas

toda essa sua lingerie

provocante.

toda essa sua renda branca,

unha vermelha,

sombra e rímel.

toda essa fantasia.

todo esse entusiasmo.

toda essa euforia.

todos aqueles rodopios

no centro da cidade.

todas as sessões de cinema

perdidas

propositalmente,

deixadas para trás.

todos aqueles motéis.

todos os fins de tarde.

todos os comprovantes, recibos

e notas

de todos os motéis baratos

e lotados de um amor novo

cheiroso, excitado;

de todos os restaurantes,

bares e pequenos presentes.

todas as esperas

minhas ou suas

quase sempre ansiosas.

todo aquele amor eterno,

e o flerte com outras pessoas,

flerte breve, relâmpago –

e o amor eterno.

todas as conversas longas

sobre amores passados,

e as crises de ciúme,

e as reconciliações.

todo aquele sexo

cheio de entrega,

e de auto-elogio,

e de completa adoração.

todos os atrasos de manhã,

todos os beijos desesperados

e as saudades imediatas,

antecipadas.

todos os poemas e cartas

mais ou menos bregas

que só se escrevem com o amor.

todo aquele comportamento

obsessivo

toda aquela vitória louca

do amor sobre o ego.

todo aquele mergulho mútuo

recíproco, profundo –

todo aquele maravilhoso abismo.

toda aquela maneira certa

de abandonar o ego,

para ganhá-lo;

e toda aquela maneira errada

de abandonar o ego,

para abandoná-lo.

todo aquele início

de rancor inconsciente,

toda aquela escolha entre si mesmo

ou sua relação –

toda essa relação

que não me inclui mais

que não te inclui mais

todo aquele romance

que se faz fantasma,

e eu não existo mais

e você não existe mais

e só existe, apenas, ainda

uma relação

que, infelizmente,

ganhou autonomia –

independente de nós mesmos.

depois, todo aquele fim,

para salvar-se.

todo aquele vinho

derramado na cama,

todo aquele champanhe.

todas as pílulas anticoncepcionais

esquecidas.

toda aquela irresponsabilidade

inspirada.

toda aquela pressa de sair

que imediatamente se desfaz

diante do tesão mais súbito.

todas aquelas menstruações

comemoradas.

todas aquelas brigas

exaustivas

de pontuação –

como vírgulas nas frases

do amor perfeito.

todo esse amor desfeito.

todo esse nosso romance rico

de literatura barata, série ouro,

de história terminada.

todo esse amor desfeito.

de vindas e idas impulsivas,

todo esse sangue quente.

todo esse romance desfeito

agora em forma

de livro de bolso –

com capa brilhante, colorida,

guardado para sempre

no topo da minha estante.

todo esse amadurecimento

toda essa serenidade

que ganhamos

com a conclusão desse romance

de literatura barata

série ouro.

toda essa potência adquirida

para, a partir de agora,

escrever romances classe A

aperfeiçoados em enredo, em estrutura,

mais sofisticados.

porém,

toda essa preferência eterna

que teremos

por esse específico romance;

romance

de literatura

barata,

e sua deliciosa irresponsabilidade.

e sua deliciosa intensidade.

e, agora, seu delicioso fim.

domingo, 10 de agosto de 2008

H1

tocando essa noite
vermelho-escuro

amaciando os azuis elétricos
e os vermelhos da noite

quero que tudo o que eu goste
fique macio.

amaciando os amarelos elétricos
e os vermelhos da noite

escarlate; vespertina;
a minha noite.

o meu fim de tarde quente
a zona erógena do dia

massageando meus olhos
o colírio natural dos meus olhos;

o sexo que fizemos e faremos
tão vermelho-claro-escuro

tão âmbar azulado
a luz elétrica da carne

o cheiro armazenado
ainda seus pelos na minha pele.


tocando essa minha noite
vermelho-escuro pelo lado esquerdo

sua agressividade suave me toma
e eu a possuo não importa;

encontro meu glamour no cerne
meu cerne no glamour

dessa imagem que a mim pertence
a qual você vem pertencer;

guardando seus lábios de cereja
entre os meus de damasco

que você perceba que te quero
e deixe transparecer a percepção

para que eu te queira
com mais violência;

o meu desejo é análogo
aos carros do rush calmo;

o sinal vai abrir,
nós temos três cores.

a toda essa aleatoriedade urbana
que sinaliza uma libido livre

o eu relaxado
e a não-reflexão

me integro perfeitamente,
pois espelho não sou.

terça-feira, 1 de julho de 2008

23 Frases [2008]

[1] Habitei a realidade ontem por 15 ou 20 minutos.

[2] A metafísica não pega no osso.

[3] Dar perguntas e fazer respostas.

[4] Os relógios da minha casa não marcam o mesmo horário.

[5] Ninguém escreve sobre a caneta.

[6] Quanto mais escrevo, à mão, mais minha letra deita para a direita. Como se minha escrita quisesse dormir.

[7] O silêncio não envolve o som.

[8] A existência é simples. O simples é que é difícil.

[9] Os centrífugos ganharão o jogo.

[10] Da noite para o dia não é de repente. A noite pode ser longa.

[11] O primeiro sorriso. O último olhar. O toque do meio.

[12] Test-drive de mim.

[13] Tenho saudades de um tijolo: aquele muro não o merece.

[14] A máscara nunca se esconde.

[15] Beber água é recuperar um pedaço do corpo.

[16] Uma só música: parte dos instrumentos fala ao lado esquerdo do cérebro, a outra parte fala ao lado direito.

[17] Seu rosto não está no espelho quando você está longe do espelho.

[18] A poesia é uma baioneta.

[19] O romance é um co-lapso.

[20] Comece pelo plano B.

[21] Gosto muito de você.
Não me deixe descobri-lo.

[22] Em 20 minutos quase tudo terá 20 minutos a mais.

[23] A noite me toca - como se eu fosse um piano.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Momento [2008]


no oceano no fundo
alto-falantes imensos
misteriosamente
borbulham músicas

nossas.


água cristalina
confunde-se à luz líquida
que escorre das garrafas;
aqueles espumantes

nossos.


esta garrafa de vinho
que agora derramo sozinho,
contém um pergaminho
escrito em uvas

suas.


cair no mar
pode ser estranho,
se o corpo está seco;
mas ele molha.


rolar na areia
também pode ser,
se o corpo molhado;
ele seca.


precisava do meu sal
sendo tão doce;
e quando era salgada
eu banhava seu corpo
no meu açúcar,

sua...

(...)

e suas passagens secretas
que só passaram a existir
quando descobertas, por mim;
ah, não guarde segredo.

eu mesmo fechei várias portas
que agora escancaro, feliz.
minhas risadas chegam a ecoar;

entre ou não você
elas eu não fecho mais;
o planeta sofre sim
alterações de velocidade.

& não se comova:
é tudo coisa de momento;

se não fosse agora,
se fosse daqui a pouco
não haveria nada disso;
eu não escreveria este

poema.

mas um pouco após
o daqui a pouco
talvez eu escrevesse.

Você no silêncio [2008]

há algo de alguma coisa nisso.
há algo de coisa alguma -

o silêncio nunca fez tanto barulho.

você habita os meus sonhos mais profundos;
aqueles dos quais não lembro ao amanhecer.

Não houve chuva [2008]

quando eu ando por essas ruas
os paralelepípedos saltam do chão;
mas quando voltam a cair
caem mais suaves,
re-encaixados com perfeição
na terra que, mesmo sem ter havido chuva,
surpreende-se molhada.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Leões [2008]

Ninguém vai me jogar aos leões
pois ninguém sabe onde eles ficam;
e eu tenho as chaves de lá.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Arquitetônica [2005]

Para massagear os pés de uma arquiteta no cinema, onze da noite, ambos sozinhos -- é preciso ter minhas mãos. Nós dois fomos desenhados pelo mesmo arquiteto. Ela, ruiva, uma peça de design. Na palma da minha mão direita há duas linhas que são perfeitamente análogas aos seus quadris; incrível. A carona mais sofisticada que eu já peguei com uma estranha, e ela me confessou, que só me levou, porque eu parecia perigoso -- e sorriu como ninguém jamais havia sorrido no mundo até aquela noite.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Sobre o Café de Flore

Os poetas gritam poemas
lá embaixo, e aqui em cima
abertas as janelas
e suas pernas --
e eu te como, com paixão e violência
sentindo o calor da sua vagina
enquanto as janelas nos aplaudem
batendo, ao ritmo do vento frio e forte
que veio do sul essa noite.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sonhos [2008]

o sonho acabou! --

me espreguicei, escovei os dentes
e saí.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

140408: às vezes

O mundo é redondo,
finito
e as pessoas estão indo –
elas ficam indo, elas vão ficando,
de um lado
a outro
de outro lado
a um.

A poesia nasce da necessidade de escrever uma frase que só faça sentido quebrada – e que componha um desenho.

A literatura não existe. O que existe é outra coisa, que chamam de literatura. A literatura nasce da necessidade de fazer outra coisa.

Outra coisa que não seja literatura.


quinta-feira, 15 de novembro de 2007

NEON ON FLESH

neon light glow neon red night
maybe neo-realistic film noir
smoky night club one smoke
seduction mystery, unsolved
dissolve, materialize with it –

neon moon neon sky neon glow
hand on wheel oh highway sex drive
revolutionary picture smoke ring

throw keys away trip
colored drinks straws
ice liquor many colors
velvet red fingernails
move it round fake
red fingernails
scratch my back while -

no hair on pubic places
the jazz beat heat
electronic sleep
my play thing mate
my flesh bone meat toy -

pink cellophane cell phone
the blue tooth mouth
iTune beer iMac beer
iPod beer cold cool skirt
iLady wears curved eyebrows
lip + stick high hips hip
roll on sand into water
tanned red hair love -

dying hot heat beat
cold coconut water
red lips straw sexy blink
wink in bed for me lazy
numb legs one more time
shake -
strawberry you
chantilly you honey you
bite your toe lick between
warm wet honey me -

marijuana memories
cigarette frenzy
suck energy from tin cans and
pills beach salt body my sugar
great touch conversation
quote me, right away -

remember smoke
do my brains out
do my body full up in
empty my body fluids
don't imagine, photograph
intelligently superficial
can only be smart belly full
and pleasured, me -

make out taxi cab
the hell with money want you now
fell the neon light glow neon
see the feeling
music to make love by
make love by traffic lights
turning green red several t -

coffee bread afternoons
orange juice cigarette morning
look out the swimming pool
bikini bathing suits red sun
let's go to the beach
salt honey sweet sugar
go home bath do it sleep
eat air conditioning –

entering the glorious highway
of sleepy strong sex drive;

condoms in ashtrays
cigarettes in sauce plates
let's go talk wind outside
elegantly naughty
your moves towards me –

throw it away come here
I go there

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Mimese lacrimal [2007].


chorei copiosamente,
isto é: alguém chorava
à minha frente - e eu copiei.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Astro-logia [2007].


os humores variam com a lua,
mas não há qualquer lógica nisso.

as pirâmides estavam alinhadas
com as constelações -- ilógico.

humor: cheio minguante crescente
novo.

os signos nada significam.
os signos - a-significantes.

os calendários existem, mas estão repletos
de lendas. qual é o relógio (o principal) que não
pode ser posto em dúvida?

: atrasado?
: adiantado?
: certo?!

o relógio do príncipe é o relógio real;
o relógio da realeza é o relógio
da autoridade -- sim, certo.

aliás, a terra é redonda
e se encontra (solta) no céu

-- nós já estamos no céu;
não há porque temer voar.

-- nada é tão grave assim;
nem mesmo a gravidade.

bata o pé por outro mapa astral.
quero outro, quero outro.

o maior mistério é por que
as estrelas que já morreram
continuam brilhando para nós.

os quatro elementos são:
pedra, papel e tesoura -- faltou um.

quem diria?

entorno da terra.
os letreiros de neón quando pifam
param de brilhar.

quarta-feira, 7 de março de 2007

KAFKIANAS BRASILEIRAS (1o movimento) [2007].


Fumar maconha chilena com o amigo argentino da minha irmã em sua estreita porém alta e muito estranha casa em Copacabana. Muros inteiramente revestidos de plantas verdes espinhosas e levemente animadas como pedaços de cobras semi-vivas que param de se mexer quando você olha, terreno de poucos metros quadrados mas a casa era como uma torre medieval de três andares numa cidade de formigas. Por dentro, madeira nova mais ou menos clara e brilhante, iluminação baixa que não permite perceber e/ou pensar o ambiente e/ou a situação que se instala no ambiente com clareza, um elevador rústico que me fez tremer sem saber por que, por que havia um elevador que um dia longínquo com certeza estivera enferrujado e agora estava re-pintado e re-polido numa casa de apenas três andares e decoração interior moderna, fiz interrogação, e quem nos atendeu e nos guiou por dentro da casa foi a tia argentina que só falava castelhano e cheirava a incenso. Ele está em seu quarto no terceiro andar, disse a tia velha magra ossuda e flácida vestida como uma cigana apertando o botão clássico do elevador clássico com seu dedo de bruxa. Minha irmã aproveitou para ser educada arranhando o seu bom espanhol enquanto eu olhava cautelosamente ao redor e fixava os ouvidos no ruído do elevador que descia lentamente. Por dentro eu ouvia meus nervos empilhados sussurrarem o que você está fazendo aqui? e eu respondia em silêncio não era esta a casa que eu estava esperando, ora; enquanto minha irmã fazia small talk em espanhol e aparentemente sem medo algum. Em algum lugar desta sala despovoada a Monalisa de Leonardo da Vinci deveria estar empoeirada observando e movendo os olhos discreta lenta e panoramicamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, e se olhássemos para ela ela fixaria os olhos imediatamente na posição normal assim como paravam de se mover as plantas do lado de fora da casa. O elevador chegou gritando brusca e gravemente como um pesado animal mitológico de metal e a peculiar tia argentina rasgou as grades de ferro para o lado entrando conosco naquele antigo cubículo móvel, fechando e apertando o número três. A maquinaria voltou a funcionar e nos carregou para cima da torre; os números eram algarismos romanos de ouro I II e III e além deles havia somente uma letra, antes do I, a letra C que julguei ser de Cobertura mas ao mesmo tempo estranhei o fato de estar posicionada antes do I e não após o III. Quando chegamos ao III notei no mesmo instante que o III era a própria cobertura, isto é, o último andar da casa, então aquele C, antes do I, só poderia dar acesso, então, a um (ao) calabouço, então. Haveria um calabouço na casa? A tia nos levou até o quarto de Julio − j pronunciado como r − e nos instalou no sofá e em seguida saiu. Julio estava lá, logo à nossa frente, a três metros da gente, mas só nos cumprimentou cerca de dois longos minutos depois após terminar algum trabalho meticuloso que ele fazia com uma maquete de isopor que reproduzia uma cidade nunca antes produzida resmungando em voz baixa algumas palavras indecifráveis expressão facial fechada. De um segundo a outro numa brusquidão absurda a expressão facial se abriu ele levantou a cabeça e veio nos receber com um calor frio pois naquele ambiente as coisas calorosas ganhavam frieza sem perder o calor; fogueira de gelo. Aluguei quatro filmes, pra vocês escolherem qual a gente vai ver, disse Julio em seu português quase perfeito quase sem sotaque. Fiquei menos nervoso. Veríamos um filme então e após o filme iríamos embora livres daquele lugar. Ao me imaginar saindo daquela casa no fim daquela visita eu via e ouvia também a minha boca fazendo ufa! e meu dedo indicador tirando o suor da testa. Uma sensação de arrependimento me tomava o corpo mas eu fazia esforço para pensar no melhor, pensar positivo. Mexi na sacola da vídeo-locadora e enfim o filme mais votado e escolhido se chamava Esquentando o Alaska, o único dos quatro do qual eu nunca tinha ouvido falar mas ok. Mas antes fumar maconha. A esperada maconha... Eu sabia que ele fumava. Ele sabia que eu fumava. O fumar maconha estava implícito, subentendido nessa visita. Vamos?, perguntou Julio com erva e seda na mão. Vamos.

Saímos do quarto e fomos parar na varanda descoberta da cobertura. O que separava o quarto dessa vasta varanda eram grandes largas portas de vidro de modo que de onde eu estava sentado ainda conseguia ver ao menos as pernas da minha irmã sentada no sofá esperando nós voltarmos para assistir o filme. Ela não fumava nunca tinha fumado maconha e Julio não se incomodou em deixá-la lá dentro porque a tia argentina já havia retornado se antecipando e se incumbindo do trabalho de distraí-la enquanto isso. Não fume muita maconha tá Julio?, disse em castelhano a tia peculiar em meio-tom de brincadeira. A varanda era vasta mas estranha como quase tudo naquela casa, tinha uma pequena piscina suja e cheia de larvas e várias plantas mortas em grandes e empoeirados vasos. Sentamo-nos um de frente para o outro em duas tortas cadeiras de metal escuro e velho. Essa aqui é chilena, disse ele enquanto fazia o baseado sem muito cuidado, na verdade com uma pressa que eu não conseguia compreender. Agora ele demonstrava mais ansiedade do que eu, que ainda obtinha maior sucesso ao escondê-la mesmo com mais motivos para tê-la. Sua ansiedade incompreensível para mim me deixou ainda mais ansioso, então passei a demonstrar mais meu nervosismo, inevitavelmente. Ele acendeu o baseado enquanto me contava como arrumara aquela erva chilena e como havia plantado maconha antigamente naquela varanda e como jogara as plantinhas fora depois que um dos seus vizinhos que também plantava foi denunciado à polícia por algum anônimo. Havia também na varanda, ao lado da piscina, uma planta carnívora em tamanho médio que às vezes abria a boca e revelava seus dentinhos afiados. Julio me confidenciou que alimentava a planta carnívora com pequenos ratos de esgoto para salvar para si a larga soma de dinheiro que sua tia dava a ele para que ele comprasse uma ração especial importada da China no mercado negro. A maconha chilena era muito forte e após três tapas bem dados eu já estava muito chapado e com a percepção vacilante, sem saber, às vezes, se meu corpo estava onde parecia estar ou se estava em outro lugar, já, e eu demorava a perceber esse suposto movimento ou deslocamento; depois, alguns segundos depois, eu me convencia de que não havia me movido, então, e ainda estava aqui onde aparentemente estava. Enquanto ele falava numa voz grave e rouca mudando bruscamente de um assunto para outro completamente diferente como se lutasse consigo mesmo para ser bem sucedido em prender minha atenção e jamais me fazer entediado para pensar em outras coisas às vezes esquecendo o que acabara de dizer eu olhava para o lado na direção da piscina e minha percepção vacilava mais uma vez junto ao meu pensamento e eu tinha dúvidas se estava pulando ou não naquela piscina do nada numa atitude louca e chocante ou se ainda estava aqui, sim, ainda estava aqui. O mesmo aconteceu várias vezes quando olhei na direção do parapeito da mureta que separava a varanda do ar, do abismo, da queda, e não sabia se já havia pulado num ato suicida incompreensível, talvez já houvesse pulado ou estivesse pulando, a caminho de pular, mas minha percepção estivesse atrasada ainda mostrando ao meu cérebro os segundos anteriores quando eu ainda estava aqui − mas no fim era verdade, eu ainda estava aqui. Com certo esforço tentava voltar a prestar atenção à fala descoordenada de Julio enquanto ele me passava o baseado para o meu décimo tapa. Tô chapadão esse beque chileno é muito bom, ele disse. Lá de dentro do quarto eu ouvi a fala cantada em baixo volume e cheia de incenso da tia argentina de Julio que agora estava sentada ao lado da minha irmã falando sem parar mas em tom irritantemente calmo e vagaroso em castelhano e as pernas da minha irmã estavam imóveis e só a tia argentina de Julio falava, pegando nas mãos da minha irmã, minha irmã não dizia nada há minutos e tudo me fez crer que ela estava sendo hipnotizada pela cigana argentina de Julio mulher estranha e de tons misteriosos, místicos, e Julio estaria então apenas me distraindo e me tornando menos resistente com um puta beque chileno forte e batizado com alguma química louca para que eu tivesse um teto preto e acordasse já no calabouço amarrado a uma maca ao lado da minha irmã amarrada a outra maca e sei lá que tipo de experimentos loucos seriam executados em nós que tipo de torturas meu Deus. Eu estava atordoado e com medo. Não conseguia mais tirar o olhar da direção do quarto e Julio continuava falando e mudando de assunto no meio das frases sem concluir as sentenças. Já havíamos terminado de fumar o baseado há mais de cinco minutos e eu não compreendia porque ele não sugeria que voltássemos para o interior da sala já que o propósito da visita era ver o filme e não fumar a maconha, dez minutos e ele olhava para trás como para conferir alguma coisa no interior da sala para a qual ele estava de costas e cada vez mais eu me convencia de que meu medo indicava uma situação real que estava de fato acontecendo e não um delírio como se Julio estivesse olhando quinze minutos após o baseado para conferir se sua tia já tinha conseguido efetuar a hipnose na minha irmã, amiga recente de Julio. O motivo da hipnose talvez fosse para convencer minha irmã de dar para Julio que estava há semanas tentando alguma coisa sexual com ela mas não conseguia nada além de uma amizade cada vez mais próxima; e o motivo do baseado chileno era me atordoar para que eu não fosse um obstáculo para a execução do ato sexual forçado entre eles dois. Vinte minutos e eu não agüentava mais tive que sugerir eu mesmo Vamo vê o filme, cara?

Vamo.

Voltamos. A tia argentina se levantou sorrindo para se retirar e nos deixar a sós e havia um sorriso estranho na cara da minha irmã. Julio colocou o filme, uma comédia com Russell Crowe e não lembro quem mais. Aliás, as únicas coisas que eu lembro do filme é que Russell Crowe estava no elenco, era uma comédia, a história se passava no Alaska e tinha algo a ver com esqui ou algum esporte parecido praticado no gelo ou na neve. Porém o que foi muito assustador é que ao assistir aquele filme, aquela noite, a cada segundo eu tinha a fortíssima impressão de já ter visto todas aquelas cenas algum outro dia do meu passado. Assistir aquele filme foi como ter um déjà vu constante de duas horas de duração, a cada segundo que passava eu tinha a impressionante sensação de poder contar aos outros o que se passaria no próximo segundo, na próxima cena, mas o próximo segundo e a próxima cena sempre chegavam logo, imediatamente, antes que eu pudesse esboçar as palavras para contá-los; porém, sempre chegavam como confirmações. Isso mesmo! Eu sabia que era isso! Em suma, eu tinha a certeza absoluta de já tê-lo assistido e era impossível que eu o tivesse assistido pois nunca sequer ouvira falar no filme, com certeza não o assistira nos cinemas (se é que ele havia passado nos cinemas, dada a sua cara de produção B) e ele era um lançamento recente nas locadoras, como havia apontado o nosso amigo Julio. Como já disse hoje não lembro de uma cena sequer e não posso alegar com certeza se esse filme existe ou não, é preciso conferir. Na minha memória, hoje, ele tem algo de alienígena, como se houvesse sido trazido de um outro planeta naquela mesma noite especialmente para nós, especialmente para mim. Lembro que era muito engraçado, mas que eu, por estar muito chapado, ria tanto nas cenas realmente engraçadas, feitas para rir, quanto em momentos quaisquer, momentos em que o personagem dizia oi ao outro, por exemplo, de uma maneira que seria comum ou nada engraçada para uma pessoa em condições normais, mas eu explodia de rir, literalmente caía do sofá e rolava no chão de tanto rir, pois naquela noite visitei outras dimensões, labirintos espaciais da comédia e do absurdo e da hipnose e da telepatia cômica espacial incrível. Julio também ria. Sempre que eu ria ele ria com a mesma intensidade ou quase, mesmo quando eu ria demais de nada. E depois dele, minha irmã também ria, mesmo quando ríamos demais e de nada. E quando fui embora daquela casa no banco do carona do carro da minha irmã tudo no que eu conseguia pensar era em comer um puta cheeseburger com um copo de coca-cola para saciar a minha imensa larica. Arrotar depois. Fumar um cigarro. Mais nada.

E o fiz.

Muitos meses, talvez até mais de um ano depois, ao conversar com a minha irmã sobre Julio ela me revelou algo que para mim era uma novidade estupenda. Julio era filho de Alberto Baviera, um dos mais famosos psicanalistas latino-americanos, argentino há muito tempo radicado no Brasil. Aquela casa em Copacabana, então, era justamente a casa de Alberto Baviera, psicanalista, que por acaso não se encontrava lá aquela noite.

Freud, mesmo, chegou a utilizar a técnica hipnótica. A psicanálise derivou-se da hipnose.