quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Entrevista com Giovanna Cyríaco (Gigi) [2009] - 3 anos depois
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
duas velocidades
mais próximo
domingo, 12 de abril de 2009
couro
domingo, 29 de março de 2009
romance
romance
de literatura
barata.
o melhor romance;
uma coletânea,
de série ouro.
todas essas cenas, suas
toda essa sua lingerie
provocante.
toda essa sua renda branca,
unha vermelha,
sombra e rímel.
toda essa fantasia.
todo esse entusiasmo.
toda essa euforia.
todos aqueles rodopios
no centro da cidade.
todas as sessões de cinema
perdidas
propositalmente,
deixadas para trás.
todos aqueles motéis.
todos os fins de tarde.
todos os comprovantes, recibos
e notas
de todos os motéis baratos
e lotados de um amor novo
cheiroso, excitado;
de todos os restaurantes,
bares e pequenos presentes.
todas as esperas
minhas ou suas
quase sempre ansiosas.
todo aquele amor eterno,
e o flerte com outras pessoas,
flerte breve, relâmpago –
e o amor eterno.
todas as conversas longas
sobre amores passados,
e as crises de ciúme,
e as reconciliações.
todo aquele sexo
cheio de entrega,
e de auto-elogio,
e de completa adoração.
todos os atrasos de manhã,
todos os beijos desesperados
e as saudades imediatas,
antecipadas.
todos os poemas e cartas
mais ou menos bregas
que só se escrevem com o amor.
todo aquele comportamento
obsessivo
toda aquela vitória louca
do amor sobre o ego.
todo aquele mergulho mútuo
recíproco, profundo –
todo aquele maravilhoso abismo.
toda aquela maneira certa
de abandonar o ego,
para ganhá-lo;
e toda aquela maneira errada
de abandonar o ego,
para abandoná-lo.
todo aquele início
de rancor inconsciente,
toda aquela escolha entre si mesmo
ou sua relação –
toda essa relação
que não me inclui mais
que não te inclui mais
todo aquele romance
que se faz fantasma,
e eu não existo mais
e você não existe mais
e só existe, apenas, ainda
uma relação
que, infelizmente,
ganhou autonomia –
independente de nós mesmos.
depois, todo aquele fim,
para salvar-se.
todo aquele vinho
derramado na cama,
todo aquele champanhe.
todas as pílulas anticoncepcionais
esquecidas.
toda aquela irresponsabilidade
inspirada.
toda aquela pressa de sair
que imediatamente se desfaz
diante do tesão mais súbito.
todas aquelas menstruações
comemoradas.
todas aquelas brigas
exaustivas
de pontuação –
como vírgulas nas frases
do amor perfeito.
todo esse amor desfeito.
todo esse nosso romance rico
de literatura barata, série ouro,
de história terminada.
todo esse amor desfeito.
de vindas e idas impulsivas,
todo esse sangue quente.
todo esse romance desfeito
agora em forma
de livro de bolso –
com capa brilhante, colorida,
guardado para sempre
no topo da minha estante.
todo esse amadurecimento
toda essa serenidade
que ganhamos
com a conclusão desse romance
de literatura barata
série ouro.
toda essa potência adquirida
para, a partir de agora,
escrever romances classe A
aperfeiçoados em enredo, em estrutura,
mais sofisticados.
porém,
toda essa preferência eterna
que teremos
por esse específico romance;
romance
de literatura
barata,
e sua deliciosa irresponsabilidade.
e sua deliciosa intensidade.
e, agora, seu delicioso fim.
domingo, 10 de agosto de 2008
H1
vermelho-escuro
amaciando os azuis elétricos
e os vermelhos da noite
quero que tudo o que eu goste
fique macio.
amaciando os amarelos elétricos
e os vermelhos da noite
escarlate; vespertina;
a minha noite.
o meu fim de tarde quente
a zona erógena do dia
massageando meus olhos
o colírio natural dos meus olhos;
o sexo que fizemos e faremos
tão vermelho-claro-escuro
tão âmbar azulado
a luz elétrica da carne
o cheiro armazenado
ainda seus pelos na minha pele.
tocando essa minha noite
vermelho-escuro pelo lado esquerdo
sua agressividade suave me toma
e eu a possuo não importa;
encontro meu glamour no cerne
meu cerne no glamour
dessa imagem que a mim pertence
a qual você vem pertencer;
guardando seus lábios de cereja
entre os meus de damasco
que você perceba que te quero
e deixe transparecer a percepção
para que eu te queira
com mais violência;
o meu desejo é análogo
aos carros do rush calmo;
o sinal vai abrir,
nós temos três cores.
a toda essa aleatoriedade urbana
que sinaliza uma libido livre
o eu relaxado
e a não-reflexão
me integro perfeitamente,
pois espelho não sou.
terça-feira, 1 de julho de 2008
23 Frases [2008]
[2] A metafísica não pega no osso.
[3] Dar perguntas e fazer respostas.
[4] Os relógios da minha casa não marcam o mesmo horário.
[5] Ninguém escreve sobre a caneta.
[6] Quanto mais escrevo, à mão, mais minha letra deita para a direita. Como se minha escrita quisesse dormir.
[7] O silêncio não envolve o som.
[8] A existência é simples. O simples é que é difícil.
[9] Os centrífugos ganharão o jogo.
[10] Da noite para o dia não é de repente. A noite pode ser longa.
[11] O primeiro sorriso. O último olhar. O toque do meio.
[12] Test-drive de mim.
[13] Tenho saudades de um tijolo: aquele muro não o merece.
[14] A máscara nunca se esconde.
[15] Beber água é recuperar um pedaço do corpo.
[16] Uma só música: parte dos instrumentos fala ao lado esquerdo do cérebro, a outra parte fala ao lado direito.
[17] Seu rosto não está no espelho quando você está longe do espelho.
[18] A poesia é uma baioneta.
[19] O romance é um co-lapso.
[20] Comece pelo plano B.
[21] Gosto muito de você. Não me deixe descobri-lo.
[22] Em 20 minutos quase tudo terá 20 minutos a mais.
[23] A noite me toca - como se eu fosse um piano.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Momento [2008]
no oceano no fundo
alto-falantes imensos
misteriosamente
borbulham músicas
nossas.
água cristalina
confunde-se à luz líquida
que escorre das garrafas;
aqueles espumantes
nossos.
esta garrafa de vinho
que agora derramo sozinho,
contém um pergaminho
escrito em uvas
suas.
cair no mar
pode ser estranho,
se o corpo está seco;
mas ele molha.
rolar na areia
também pode ser,
se o corpo molhado;
ele seca.
precisava do meu sal
sendo tão doce;
e quando era salgada
eu banhava seu corpo
no meu açúcar,
sua...
(...)
e suas passagens secretas
que só passaram a existir
quando descobertas, por mim;
ah, não guarde segredo.
eu mesmo fechei várias portas
que agora escancaro, feliz.
minhas risadas chegam a ecoar;
entre ou não você
elas eu não fecho mais;
o planeta sofre sim
alterações de velocidade.
& não se comova:
é tudo coisa de momento;
se não fosse agora,
se fosse daqui a pouco
não haveria nada disso;
eu não escreveria este
poema.
mas um pouco após
o daqui a pouco
talvez eu escrevesse.
Você no silêncio [2008]
há algo de coisa alguma -
o silêncio nunca fez tanto barulho.
você habita os meus sonhos mais profundos;
aqueles dos quais não lembro ao amanhecer.
Não houve chuva [2008]
os paralelepípedos saltam do chão;
mas quando voltam a cair
caem mais suaves,
re-encaixados com perfeição
na terra que, mesmo sem ter havido chuva,
surpreende-se molhada.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Leões [2008]
pois ninguém sabe onde eles ficam;
e eu tenho as chaves de lá.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Arquitetônica [2005]
terça-feira, 3 de junho de 2008
Sobre o Café de Flore
lá embaixo, e aqui em cima
abertas as janelas
e suas pernas --
e eu te como, com paixão e violência
sentindo o calor da sua vagina
enquanto as janelas nos aplaudem
batendo, ao ritmo do vento frio e forte
que veio do sul essa noite.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
140408: às vezes
finito
e as pessoas estão indo –
elas ficam indo, elas vão ficando,
de um lado
a outro
de outro lado
a um.
A poesia nasce da necessidade de escrever uma frase que só faça sentido quebrada – e que componha um desenho.
A literatura não existe. O que existe é outra coisa, que chamam de literatura. A literatura nasce da necessidade de fazer outra coisa.
Outra coisa que não seja literatura.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
NEON ON FLESH
neon light glow neon red night
maybe neo-realistic film noir
smoky night club one smoke
seduction mystery, unsolved
dissolve, materialize with it –
neon moon neon sky neon glow
hand on wheel oh highway sex drive
revolutionary picture smoke ring
throw keys away trip
colored drinks straws
ice liquor many colors
velvet red fingernails
move it round fake
red fingernails
scratch my back while -
no hair on pubic places
the jazz beat heat
electronic sleep
my play thing mate
my flesh bone meat toy -
pink cellophane cell phone
the blue tooth mouth
iTune beer iMac beer
iPod beer cold cool skirt
iLady wears curved eyebrows
lip + stick high hips hip
roll on sand into water
tanned red hair love -
dying hot heat beat
cold coconut water
red lips straw sexy blink
wink in bed for me lazy
numb legs one more time
shake -
strawberry you
chantilly you honey you
bite your toe lick between
warm wet honey me -
marijuana memories
cigarette frenzy
suck energy from tin cans and
pills beach salt body my sugar
great touch conversation
quote me, right away -
remember smoke
do my brains out
do my body full up in
empty my body fluids
don't imagine, photograph
intelligently superficial
can only be smart belly full
and pleasured, me -
make out taxi cab
the hell with money want you now
fell the neon light glow neon
see the feeling
music to make love by
make love by traffic lights
turning green red several t -
coffee bread afternoons
orange juice cigarette morning
look out the swimming pool
bikini bathing suits red sun
let's go to the beach
salt honey sweet sugar
go home bath do it sleep
eat air conditioning –
entering the glorious highway
of sleepy strong sex drive;
condoms in ashtrays
cigarettes in sauce plates
let's go talk wind outside
elegantly naughty
your moves towards me –
throw it away come here
I go there
segunda-feira, 9 de abril de 2007
sexta-feira, 16 de março de 2007
Astro-logia [2007].
os humores variam com a lua,
mas não há qualquer lógica nisso.
as pirâmides estavam alinhadas
com as constelações -- ilógico.
humor: cheio minguante crescente
novo.
os signos nada significam.
os signos - a-significantes.
os calendários existem, mas estão repletos
de lendas. qual é o relógio (o principal) que não
pode ser posto em dúvida?
: atrasado?
: adiantado?
: certo?!
o relógio do príncipe é o relógio real;
o relógio da realeza é o relógio
da autoridade -- sim, certo.
aliás, a terra é redonda
e se encontra (solta) no céu
-- nós já estamos no céu;
não há porque temer voar.
-- nada é tão grave assim;
nem mesmo a gravidade.
bata o pé por outro mapa astral.
quero outro, quero outro.
o maior mistério é por que
as estrelas que já morreram
continuam brilhando para nós.
os quatro elementos são:
pedra, papel e tesoura -- faltou um.
quem diria?
entorno da terra.
os letreiros de neón quando pifam
param de brilhar.
quarta-feira, 7 de março de 2007
KAFKIANAS BRASILEIRAS (1o movimento) [2007].
Fumar maconha chilena com o amigo argentino da minha irmã em sua estreita porém alta e muito estranha casa em Copacabana. Muros inteiramente revestidos de plantas verdes espinhosas e levemente animadas como pedaços de cobras semi-vivas que param de se mexer quando você olha, terreno de poucos metros quadrados mas a casa era como uma torre medieval de três andares numa cidade de formigas. Por dentro, madeira nova mais ou menos clara e brilhante, iluminação baixa que não permite perceber e/ou pensar o ambiente e/ou a situação que se instala no ambiente com clareza, um elevador rústico que me fez tremer sem saber por que, por que havia um elevador que um dia longínquo com certeza estivera enferrujado e agora estava re-pintado e re-polido numa casa de apenas três andares e decoração interior moderna, fiz interrogação, e quem nos atendeu e nos guiou por dentro da casa foi a tia argentina que só falava castelhano e cheirava a incenso. Ele está em seu quarto no terceiro andar, disse a tia velha magra ossuda e flácida vestida como uma cigana apertando o botão clássico do elevador clássico com seu dedo de bruxa. Minha irmã aproveitou para ser educada arranhando o seu bom espanhol enquanto eu olhava cautelosamente ao redor e fixava os ouvidos no ruído do elevador que descia lentamente. Por dentro eu ouvia meus nervos empilhados sussurrarem o que você está fazendo aqui? e eu respondia em silêncio não era esta a casa que eu estava esperando, ora; enquanto minha irmã fazia small talk em espanhol e aparentemente sem medo algum. Em algum lugar desta sala despovoada a Monalisa de Leonardo da Vinci deveria estar empoeirada observando e movendo os olhos discreta lenta e panoramicamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, e se olhássemos para ela ela fixaria os olhos imediatamente na posição normal assim como paravam de se mover as plantas do lado de fora da casa. O elevador chegou gritando brusca e gravemente como um pesado animal mitológico de metal e a peculiar tia argentina rasgou as grades de ferro para o lado entrando conosco naquele antigo cubículo móvel, fechando e apertando o número três. A maquinaria voltou a funcionar e nos carregou para cima da torre; os números eram algarismos romanos de ouro I II e III e além deles havia somente uma letra, antes do I, a letra C que julguei ser de Cobertura mas ao mesmo tempo estranhei o fato de estar posicionada antes do I e não após o III. Quando chegamos ao III notei no mesmo instante que o III era a própria cobertura, isto é, o último andar da casa, então aquele C, antes do I, só poderia dar acesso, então, a um (ao) calabouço, então. Haveria um calabouço na casa? A tia nos levou até o quarto de Julio − j pronunciado como r − e nos instalou no sofá e em seguida saiu. Julio estava lá, logo à nossa frente, a três metros da gente, mas só nos cumprimentou cerca de dois longos minutos depois após terminar algum trabalho meticuloso que ele fazia com uma maquete de isopor que reproduzia uma cidade nunca antes produzida resmungando em voz baixa algumas palavras indecifráveis expressão facial fechada. De um segundo a outro numa brusquidão absurda a expressão facial se abriu ele levantou a cabeça e veio nos receber com um calor frio pois naquele ambiente as coisas calorosas ganhavam frieza sem perder o calor; fogueira de gelo. Aluguei quatro filmes, pra vocês escolherem qual a gente vai ver, disse Julio em seu português quase perfeito quase sem sotaque. Fiquei menos nervoso. Veríamos um filme então e após o filme iríamos embora livres daquele lugar. Ao me imaginar saindo daquela casa no fim daquela visita eu via e ouvia também a minha boca fazendo ufa! e meu dedo indicador tirando o suor da testa. Uma sensação de arrependimento me tomava o corpo mas eu fazia esforço para pensar no melhor, pensar positivo. Mexi na sacola da vídeo-locadora e enfim o filme mais votado e escolhido se chamava Esquentando o Alaska, o único dos quatro do qual eu nunca tinha ouvido falar mas ok. Mas antes fumar maconha. A esperada maconha... Eu sabia que ele fumava. Ele sabia que eu fumava. O fumar maconha estava implícito, subentendido nessa visita. Vamos?, perguntou Julio com erva e seda na mão. Vamos.
Saímos do quarto e fomos parar na varanda descoberta da cobertura. O que separava o quarto dessa vasta varanda eram grandes largas portas de vidro de modo que de onde eu estava sentado ainda conseguia ver ao menos as pernas da minha irmã sentada no sofá esperando nós voltarmos para assistir o filme. Ela não fumava nunca tinha fumado maconha e Julio não se incomodou em deixá-la lá dentro porque a tia argentina já havia retornado se antecipando e se incumbindo do trabalho de distraí-la enquanto isso. Não fume muita maconha tá Julio?, disse em castelhano a tia peculiar em meio-tom de brincadeira. A varanda era vasta mas estranha como quase tudo naquela casa, tinha uma pequena piscina suja e cheia de larvas e várias plantas mortas em grandes e empoeirados vasos. Sentamo-nos um de frente para o outro em duas tortas cadeiras de metal escuro e velho. Essa aqui é chilena, disse ele enquanto fazia o baseado sem muito cuidado, na verdade com uma pressa que eu não conseguia compreender. Agora ele demonstrava mais ansiedade do que eu, que ainda obtinha maior sucesso ao escondê-la mesmo com mais motivos para tê-la. Sua ansiedade incompreensível para mim me deixou ainda mais ansioso, então passei a demonstrar mais meu nervosismo, inevitavelmente. Ele acendeu o baseado enquanto me contava como arrumara aquela erva chilena e como havia plantado maconha antigamente naquela varanda e como jogara as plantinhas fora depois que um dos seus vizinhos que também plantava foi denunciado à polícia por algum anônimo. Havia também na varanda, ao lado da piscina, uma planta carnívora em tamanho médio que às vezes abria a boca e revelava seus dentinhos afiados. Julio me confidenciou que alimentava a planta carnívora com pequenos ratos de esgoto para salvar para si a larga soma de dinheiro que sua tia dava a ele para que ele comprasse uma ração especial importada da China no mercado negro. A maconha chilena era muito forte e após três tapas bem dados eu já estava muito chapado e com a percepção vacilante, sem saber, às vezes, se meu corpo estava onde parecia estar ou se estava em outro lugar, já, e eu demorava a perceber esse suposto movimento ou deslocamento; depois, alguns segundos depois, eu me convencia de que não havia me movido, então, e ainda estava aqui onde aparentemente estava. Enquanto ele falava numa voz grave e rouca mudando bruscamente de um assunto para outro completamente diferente como se lutasse consigo mesmo para ser bem sucedido em prender minha atenção e jamais me fazer entediado para pensar em outras coisas às vezes esquecendo o que acabara de dizer eu olhava para o lado na direção da piscina e minha percepção vacilava mais uma vez junto ao meu pensamento e eu tinha dúvidas se estava pulando ou não naquela piscina do nada numa atitude louca e chocante ou se ainda estava aqui, sim, ainda estava aqui. O mesmo aconteceu várias vezes quando olhei na direção do parapeito da mureta que separava a varanda do ar, do abismo, da queda, e não sabia se já havia pulado num ato suicida incompreensível, talvez já houvesse pulado ou estivesse pulando, a caminho de pular, mas minha percepção estivesse atrasada ainda mostrando ao meu cérebro os segundos anteriores quando eu ainda estava aqui − mas no fim era verdade, eu ainda estava aqui. Com certo esforço tentava voltar a prestar atenção à fala descoordenada de Julio enquanto ele me passava o baseado para o meu décimo tapa. Tô chapadão esse beque chileno é muito bom, ele disse. Lá de dentro do quarto eu ouvi a fala cantada em baixo volume e cheia de incenso da tia argentina de Julio que agora estava sentada ao lado da minha irmã falando sem parar mas em tom irritantemente calmo e vagaroso em castelhano e as pernas da minha irmã estavam imóveis e só a tia argentina de Julio falava, pegando nas mãos da minha irmã, minha irmã não dizia nada há minutos e tudo me fez crer que ela estava sendo hipnotizada pela cigana argentina de Julio mulher estranha e de tons misteriosos, místicos, e Julio estaria então apenas me distraindo e me tornando menos resistente com um puta beque chileno forte e batizado com alguma química louca para que eu tivesse um teto preto e acordasse já no calabouço amarrado a uma maca ao lado da minha irmã amarrada a outra maca e sei lá que tipo de experimentos loucos seriam executados em nós que tipo de torturas meu Deus. Eu estava atordoado e com medo. Não conseguia mais tirar o olhar da direção do quarto e Julio continuava falando e mudando de assunto no meio das frases sem concluir as sentenças. Já havíamos terminado de fumar o baseado há mais de cinco minutos e eu não compreendia porque ele não sugeria que voltássemos para o interior da sala já que o propósito da visita era ver o filme e não fumar a maconha, dez minutos e ele olhava para trás como para conferir alguma coisa no interior da sala para a qual ele estava de costas e cada vez mais eu me convencia de que meu medo indicava uma situação real que estava de fato acontecendo e não um delírio como se Julio estivesse olhando quinze minutos após o baseado para conferir se sua tia já tinha conseguido efetuar a hipnose na minha irmã, amiga recente de Julio. O motivo da hipnose talvez fosse para convencer minha irmã de dar para Julio que estava há semanas tentando alguma coisa sexual com ela mas não conseguia nada além de uma amizade cada vez mais próxima; e o motivo do baseado chileno era me atordoar para que eu não fosse um obstáculo para a execução do ato sexual forçado entre eles dois. Vinte minutos e eu não agüentava mais tive que sugerir eu mesmo Vamo vê o filme, cara?
Vamo.
Voltamos. A tia argentina se levantou sorrindo para se retirar e nos deixar a sós e havia um sorriso estranho na cara da minha irmã. Julio colocou o filme, uma comédia com Russell Crowe e não lembro quem mais. Aliás, as únicas coisas que eu lembro do filme é que Russell Crowe estava no elenco, era uma comédia, a história se passava no Alaska e tinha algo a ver com esqui ou algum esporte parecido praticado no gelo ou na neve. Porém o que foi muito assustador é que ao assistir aquele filme, aquela noite, a cada segundo eu tinha a fortíssima impressão de já ter visto todas aquelas cenas algum outro dia do meu passado. Assistir aquele filme foi como ter um déjà vu constante de duas horas de duração, a cada segundo que passava eu tinha a impressionante sensação de poder contar aos outros o que se passaria no próximo segundo, na próxima cena, mas o próximo segundo e a próxima cena sempre chegavam logo, imediatamente, antes que eu pudesse esboçar as palavras para contá-los; porém, sempre chegavam como confirmações. Isso mesmo! Eu sabia que era isso! Em suma, eu tinha a certeza absoluta de já tê-lo assistido e era impossível que eu o tivesse assistido pois nunca sequer ouvira falar no filme, com certeza não o assistira nos cinemas (se é que ele havia passado nos cinemas, dada a sua cara de produção B) e ele era um lançamento recente nas locadoras, como havia apontado o nosso amigo Julio. Como já disse hoje não lembro de uma cena sequer e não posso alegar com certeza se esse filme existe ou não, é preciso conferir. Na minha memória, hoje, ele tem algo de alienígena, como se houvesse sido trazido de um outro planeta naquela mesma noite especialmente para nós, especialmente para mim. Lembro que era muito engraçado, mas que eu, por estar muito chapado, ria tanto nas cenas realmente engraçadas, feitas para rir, quanto em momentos quaisquer, momentos em que o personagem dizia oi ao outro, por exemplo, de uma maneira que seria comum ou nada engraçada para uma pessoa em condições normais, mas eu explodia de rir, literalmente caía do sofá e rolava no chão de tanto rir, pois naquela noite visitei outras dimensões, labirintos espaciais da comédia e do absurdo e da hipnose e da telepatia cômica espacial incrível. Julio também ria. Sempre que eu ria ele ria com a mesma intensidade ou quase, mesmo quando eu ria demais de nada. E depois dele, minha irmã também ria, mesmo quando ríamos demais e de nada. E quando fui embora daquela casa no banco do carona do carro da minha irmã tudo no que eu conseguia pensar era em comer um puta cheeseburger com um copo de coca-cola para saciar a minha imensa larica. Arrotar depois. Fumar um cigarro. Mais nada.
E o fiz.
Muitos meses, talvez até mais de um ano depois, ao conversar com a minha irmã sobre Julio ela me revelou algo que para mim era uma novidade estupenda. Julio era filho de Alberto Baviera, um dos mais famosos psicanalistas latino-americanos, argentino há muito tempo radicado no Brasil. Aquela casa em Copacabana, então, era justamente a casa de Alberto Baviera, psicanalista, que por acaso não se encontrava lá aquela noite.
Freud, mesmo, chegou a utilizar a técnica hipnótica. A psicanálise derivou-se da hipnose.
